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terça-feira , 24 outubro 2017
Um novo olhar sobre os moradores de rua: Rethink Homelessness

Um novo olhar sobre os moradores de rua: Rethink Homelessness

Há pouco mais de um ano surgiu uma iniciativa que vem encantando o mundo. O projeto é simples, mas revolucionário: Repense o Mendigo. Quem mora em um grande centro urbano sabe que moradores de rua fazem parte da paisagem. são seres que perambulam pedindo esmolas, maltrapilhos, imundos, cabelos desgrenhados. Alguns estão sempre no mesmo lugar, como um território particular em meio à propriedade pública. São a classe social que mais incomoda na sociedade, na mesma medida que desperta pena em muitos, causa repugnância em outros tantos.

Não há quem não manifeste sua opinião sobre como “resolver o problema dos mendigos”, desde extremos violentos como extermínio (não sejamos hipócritas, todo mundo conhece um imbecil que defende essa ideia), ou encarceramento (mandá-los para abrigos, albergues públicos, qualquer local local onde estejam impedidos de circular em público enquanto insistirem em ser vagabundos). Há muitos que opinam que algo deveria ser feito no sentido de reorientar suas vidas, dando-lhes emprego, cursos de recolocação profissional, imaginando que sua condição é exclusivamente causada por desamparo do poder público. Alguns simplesmente dão esmolas e tocam suas vidas, achando legítimo o modelo de vida que os moradores de rua têm (esses são os mais raros).

Em Orlando, nos Estados Unidos, a organização não-governamental Rethink Homelessness busca realizar um processo de reflexão da figura do mendigo, tentando desfazer os preconceitos que os envolvem. Começaram com uma campanha belíssima em que pedem que moradores de rua escrevam em um pedaço de papelão (desses que se costuma ver escrito o pedido de esmola) algo que julgassem importante sobre a própria vida. O resultado vem sendo divulgado frequentemente na fan page do projeto e em sua página. É incrível ler cartazes com dizeres como “Um dia eu tive uma bolsa de estudos para jogar Baseball”, “Eu sou um Geek”, “Eu era uma personal trainer”, entre outros. Veja algumas das imagens retiradas do vídeo de divulgação do projeto:

 Os conceitos arraigados sobre os moradores de rua são tão poderosos que é muito provável que ao ver este artigo, o leitor ainda pense “também, mendigo nos Estados Unidos!”, mas a realidade brasileira não é muito distante. O grupo americano vem descobrindo que os motivos que levam à mendicância raramente são relativos à pobreza familiar. Temos em nosso país as duas realidades, um grande contingente de desamparados por conta de terem nascido em situação de miséria, mas há e sempre houve uma grande quantidade de moradores de rua cuja história de vida surpreenderia. Como professor de literatura, por alguns anos solicitei como trabalho escolar que meus alunos entrevistassem um mendigo, inquirindo sobre sua trajetória de vida, motivos que o levaram à rua, etc. Foram várias entrevistas e todas revelavam vidas com muito significado que foram desvirtuadas por vários motivos (nenhum deles pobreza).

Já postamos aqui um artigo refletindo nossa condição preconceituosa que distingue personagens das ruas por conta da condição social: Um país em que até mendigos são artistas… ou seriam nossos artistas mendigos?. Mais que resolver o problema dos moradores de rua (pois talvez não haja resolução, ou talvez não seja um problema), o grupo abre uma discussão profunda: há seres humanos inteiros ali, com suas histórias de vida. A presença de pessoas que simplesmente vivem à margem da máquina social não é nova, é possível defender que desde que surgiram as cidades na história humana, houve quem vivesse à mercê da ajuda alheia, na mendicância. Os evangelhos fazem diversas referências a mendigos esmolando, só como exemplo da antiguidade desse modelo de vida. Em vez de questionarmos por que, em pleno 2014, ainda não foi resolvido esse problema, não pensamos que já era tempo de olharmos esse modo de existir por outros olhos, sem a máscara da falsa generosidade, sem caridade ditatorial, que quer impor uma solução. Abaixo o vídeo do projeto:

Sobre Adriano Dias

Adriano Dias é um dos idealizadores do projeto, articulista e mergulhador no "mar de signos" em busca de formas curiosas e relevantes de cultura. Também leciona literatura, gramática e técnicas de redação como profissão.

5 comentários

  1. Leandro, William, ler a matéria e ler o comentário de vocês bota a gente pra pensar. O que fazer? Mas sou um pouco pessimista, creio que enquanto vivermos nesta sociedade desigual, pautada pelo consumo, por valores tão superficiais, que o ter é mais importante que o ser, este tipo de situação vai sempre existir… Vida simples (pesquise simplicidade voluntária), penso ser a alternativa (utópica?). No momento creio que o melhor é oferecer o mínimo de dignidade (disponibilizar locais para higiene pessoal, abrigo opcional, áreas de descanso etc) afinal eles tem o direito de estarnas ruas. Trabalhei em um hospital psiquiátrico e lembro de um interno com uma camiseta com a inscrição: “O louco grita o meu sufoco!” Falou tudo!

    • Os loucos estão num estado existencial semelhante aos mendigos pela abstinência da capacidade de escolha. Não tem, necessariamente a ver com capitalismo, se levarmos em conta o quanto essa estrutura de poder é nova, em relação à presença de moradores de rua, como comento no artigo. Tua proposição de criar centros de apoio, locais de higiene e talz, é a mais coerente, permitir que escolham usufruir desses benefícios sociais, disponibilizados pelo poder público ou pelo Exército da Salvação. Ainda assim, não resolverá a situação, na medida que ela é tratada como um problema social principalmente por ‘enfeiar’ a cidade, os mendigos poluem e incomodam a vida cotidiana pedindo, chamando a atenção para sua carestia, incomodam nossa rotina egoísta com um soco de realidade sofrida. O mais comum é que se tente “limpar” a cidade dessa nódoa. O projeto americano é fantástico justamente nisso, em fazer com que se mude o olhar para essas pessoas.

    • Pois é, Fernando!

  2. acho toda e qq iniciativa para tirar uma pessoa da miséria e abandono é louvável e demonstra alto grau de humanidade. mas é preciso de que a pessoa que recebe esta ajuda tb queira não só sair das ruas como tirar as ruas de dentro de si, aceitando as regras e os deveres que terão de seguir, e muitos não aceitam estas exigências impostas dos voluntários e assistentes sociais..que mesmo após receberem todas as beneficies, oferecidas …acabam retornando à ruas e a miséria imposta a si mesmo….mas não devemos desistir LUTAR SEMPRE….em caso de precisarem de ajuda para encaminhar estes irmãos desafortunados por favor PROCUREM O EXERCITO DE SALVAÇÃO À RUA TÁGUA esquina com RUA SÃO JOAQUIM…NO BAIRRO DA LIBERDADE. POR FONE OU PESSOALMENTE NO END. ACIMA ALI É O CORPO CENTRAL….(metrô são Joaquim)e ou as entidades de seu conhecimento e confiança…..EXERCITO DE SALVAÇÃO EU CONHEÇO EU CONFIO….ajudando nossos semelhantes desde o SÉC 19. ….

  3. Moro no Centro de São Paulo, mais precisamente no bairro de Campos Elíseos, bairro este que muitos resolveram batizar de Cracolândia. Andar pelas ruas daqui tem sido uma espécie de espetáculo bizarro, desde aquela que chora e grita pelo amor diante de uma janela àquela que à luz do dia tira toda a roupa gritando que o que Deus quer é o coração. No meio de tudo isto, o que mais me incomoda é que percebo que as pessoas que por aqui vivem ou passam, desenvolveram ou fingem uma anestesia a tudo isto. Sinto que há um medo pior que o medo é a certeza de que ninguém sabe o que fazer. Quem passa pela rua não sabe. Aí, um morador que não sabe também, liga para polícia. A polícia também não sabe. Na minha cabeça, o mendigo também não sabe. E qualquer um que seja acionado para a situação, pessoa física ou jurídica, ficará paralisado ou terá ideias estapafúrdias. O que percebo, é que a maioria dos que por aqui circulam precisam de ajuda. Eles estão sofrendo! E aí a palavra “ajuda” pode ser entendida como um assistencialismo que também vemos vez por outra aqui no bairro que também tem intenções e resultados duvidosos, isto quando não tem consequências ainda piores. Enfim, embora eu não acredite que a ideia de se colocar na margem de um sistema como o nosso seja insensata, pelo menos por aqui – viver na rua dói – e sem o efeito do álcool, do crack ou da loucura não dá para insistir nesta maneira de vida.

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