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quinta-feira , 25 maio 2017
Querido Professor: Enfie o Carimbo no bolso e repense

Querido Professor: Enfie o Carimbo no bolso e repense

Photograph by Alfred Eisenstaedt. Oklahoma City, Oklahoma, USA, December 1948.

Photograph by Alfred Eisenstaedt. Oklahoma City, Oklahoma, USA, December 1948.

Preciso demais escrever esse artigo, pois condensa uma das mais abjetas experiências como professor que coleciono (e não são poucas). Trata-se de um fenômeno nada raro, pelo contrário, cotidiano, podendo-se deduzir ser quase inerente ao docente. É a conversa das mais comuns entre professores no intervalo de aulas (o famoso recreio):

– Aquele 2º B é horrível, ninguém quer nada com nada. Tem aquele Felipe que é um lixo, esse vai trabalhar no McDonald’s, a Mariana vai arranjar alguém pra dar, que se depender dela, tá ferrada. E aquela turminha da janela, quando eles vão acordar. Vão todos fazer uma faculdadezinha de merda, é por isso que o país está desse jeito.

Antes de descarregar meu incômodo, confesso que parte de mim compreende e muito os constituintes internos que geram esse tipo de discurso escroto. O trabalho de professor é ingrato, há um abismo entre o que ele pensa que está fazendo, suas expectativas como ator social, sobre a importância de seu trabalho e do que está ensinando, e a recepção dos adolescentes. Sempre, ano a ano, quase todo dia o docente acorda para salvar o mundo, para mudar a sociedade, para construir saberes e esbarra numa muralha abissal de desinteresse e indisciplina, no mínimo tédio! É revoltante, frustrante não só para o indivíduo com suas aspirações pessoais quanto para o cidadão que enxerga a falência do processo que engendra.

f96fcc2ea4ac5113d35d9c5ad79e086bAs turmas vão crescendo, algumas se aperfeiçoando com o trabalho resiliente de disciplinar, educar, ensinar, motivar das escola e do professor dedicado, mas quando os alunos começam a ficar “bons”, vão embora e o que vem são outras crianças e o ciclo se repete. É exatamente como a punição mítica de Sísifo, condenado a empurrar uma pedra morro acima até o topo, para que, em seguida, ela rolasse à base e tivesse que começar tudo de novo.  Talvez seja a argumentação mais aceitável para o carimbo mágico que muitos docentes creem terem em mãos, capazes de determinar, mediante o parco diagnóstico dos momentos em aula que teve com os adolescentes, qual será o destino deles.

Como a Escola é entendida como parte crucial na formação do cidadão e do ser humano (para muitos é a definitiva), parece justo deduzir sobre os alunos que não se dedicam como deveriam (conceito bem mais complexo do que parece) que serão condenados inevitavelmente à sarjeta do mercado de trabalho. As imprecações são passionais, com rostos vermelhos, respingando fel do desprezo, mas a argumentação se pretende racional, pois a vida vai engolir, trucidar esses vagabundos.

Cheguei a flagrar colegas escolhidos como Paraninfos de formandos questionando entre si o que mentir no discurso de formatura, pois não suportavam as turmas que os haviam escolhido para homenagear. Mas o cotidiano: “esse moleque não dar em nada”, “essa menina não vai ser ninguém”, “dessa turma não salva um” é a mais deplorável manifestação da prepotência que tais docentes talvez nem se percebam vítimas.

1c5352e59b7f3c0ad5734b8ba0869d4bE o tempo passa. Ao longo dos 11 anos que tenho sido professor já acumulei exemplos maravilhosos de alunos carimbados como lixos, inúteis, que “tomaram jeito”, conceito que discordo, pois os encontro e vejo que o que mudou neles não foi nada tão radical assim, apenas o momento é diferente, outra maturidade, a vivência de um curso pelo qual se interessam, vários fatores, menos o “tomaram jeito”, pois continuam brincalhões, acelerados, alegres.

Um caso clássico do carimbo nocivo docente foi de uma aluna fantástica em humanas que se mostrava incapaz de chegar sequer a 3,0 em química, além de demonstrar dificuldades nas outras áreas de exatas (mas não tão gritantes). No 2º ano do Ensino Médio foi reprovada com uma discussão acalorada no conselho de classe. Não era possível alguém que fechava com 10,0 em literatura, inglês e redação, 9 ou 8 em História, Geografia, Filosofia e Sociologia, repetir de ano. Pois a defesa da frente que a condenou era de que ela não iria muito longe com as dificuldades que manifestava. A moça, que já lecionava inglês na época (aprendendo francês e espanhol), foi para outra escola, venceu um concurso pelo qual tornou-se representante regional juvenil para o Rio +20, viajando à Holanda, ainda visitou outros países (levando o nome da outra escola). Hoje faz Relações Internacionais e creio ter superado seu trauma, mas eu não. Essa história me faz lembrar muitas outras, dezenas.

Não apenas falham os diagnósticos amargos dos docentes carimbadores, como essa postura reforça estigmas de muitos alunos cuja maior necessidade é diálogo, orientação, que se contribua para acelerar a chegada do momento em que eles perceberão a necessidade de se dedicarem a produzir algo. A escola exige apenas trabalho abstrato (em sua esmagadora maioria), decorativo, reflexões pouco significativas em relação à realidade imediata e tem o agravante de ser obrigatória. Não há nada mais natural se manifeste o tédio, dispersão e indisciplina.

Proponho, sim, mais um impedimento que se soma à montanha de limitações da ação docente, ou seja: nem mais dizer o que pensa se pode? É preciso desmascarar a fraude do discurso que defende a punição dada a alunos que não se dedicam (como os professores gostariam que o fizessem) como sendo uma ação de rigidez, de ajuste pedagógico, de ensino, quando tal medida tem raízes mais rancorosas do que essas.

Não defendo, de forma nenhuma, a permissão dos adolescentes para que façam, então, o que quiserem, que toquem o terror, que não façam nada e passem de ano. A discussão não é essa. O problema está no carimbo determinante, que deve ser enfiado no “”””””””” bolso de trás da calça, que o docente trabalhe de forma mais coerente com a limitação de sua função na vida dos seres humanos que passam por ele, na mesma medida que supervalorize a sua capacidade de criar ranços e traumas nada produtivos na formação dos mesmos.

Nem milito por “pedagogias do amor”, mas pela colocação do professor no seu devido lugar, ou seja, apenas um pedacinho de formação do todo de cada aluno, um ensinador de seu conteúdo de domínio o melhor que conseguir, o mais sedutor que conseguir e mesmo se não quiser ser assim, mesmo se não conduzir, dar-se conta que não tem autoridade nem muito menos direito de popularizar o julgamento leviano de que o comportamento circunstancial dos alunos que não rendem é deles constituinte e determinante.

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Sobre Adriano Dias

Adriano Dias é um dos idealizadores do projeto, articulista e mergulhador no "mar de signos" em busca de formas curiosas e relevantes de cultura. Também leciona literatura, gramática e técnicas de redação como profissão.

Um comentário

  1. Tenho certeza que os professores, com seus dois ou três períodos em sala de aula diários, não conseguem ( por falta de tempo ou esclarecimento ) perceber o que fazer com seus carimbos. Obrigado por elucidar o nosso lugar na sociedade.

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