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quarta-feira , 28 junho 2017
Pikachu, esquerda, e direita (Crônica)

Pikachu, esquerda, e direita (Crônica)

cristi“Algodão doce, oh o algodão doce!”, gritava o Pikachu de havaianas, segurando um mastro cheio da mercadoria, debaixo de um sol de 35 graus, caminhando pela areia fofa que lhe causava aflição. A vida não estava fácil. Há um tempo, havia brigado com Ash. Política. Ash era tradicional demais, e sua mente anacrônica lhe deixava bitolado e obsoleto, capaz de festejar panelaços golpistas e aclamar por intervenções militares. Enquanto ostentava masterballs na cintura, pouco se importava com quem só podia capturar Diglett’s na mão mesmo. Era daqueles de direita que aplaudem até o Eduardo Cunha. “Por isso votei no Bolsonaro”, foi a penúltima frase que Pikachu permitiu-se ouvir da boca de Ash antes de desampará-lo e resolver viver sozinho. “Vá mesmo, ingrato, vá pra Cuba e muda o nome pra PikaChe”, finalizou o rapaz. Mas no mundo de hoje, se um negro, mesmo com inglês fluente, tem dificuldade social para obter um emprego, imagina um ser amarelo que consegue apenas pronunciar a palavra “pikachu”. Foi quando decidiu entrar numa escola de idiomas, mas só até sofrer bullying de seus colegas de classe. Não pelo fato de ser um pokemon, mas por ter revelado seu amor por Charmander. Na ditadura da sexualidade, Pikachu se viu achincalhado pelo seu entorno e observou a noticia se espalhar e cair nos ouvidos de Ash, que lhe telefonou e desferiu ofensas gratuitas e preconceituosas. Pikachu era gay, amarelo, sem estudos, e vivia no Brasil. Pikachu estava fodido.

sad_pikachu_by_liza23q-d6nsmh8Sem amigos e sem amor, destinou seu tempo a comer restos que encontrava no lixo, e dormia em bancos de praças que não estavam tomadas pelos viciados abandonados da crackolândia. Chegou a pensar em usar a pedra, mas logo percebeu que ela era bem diferente daquela que o faria evoluir. Já não tinha dinheiro pra quase nada, e suas economias mal podiam cobrir o aluguel das pokebolas. Fez bicos fornecendo energia para bingos ilegais, mas quando a casa caiu, a corda estourou pro lado mais fraco. Pikachu era gay, amarelo, sem estudos, estava preso, e vivia no Brasil. Sorte a dele. Se não vivesse, tava fodido. Bastou uma foto com o filho da juíza pra ser liberado e usufruir do famoso jeitinho brasileiro. Em meio à sobrevivência, tentou a sorte no Tinder, mas ninguém o interessava. Nada mais o interessava. Arranjou um trabalho em um buffet infantil e, com o dinheiro, resolveu investir no seu próprio corpo. Matriculou-se numa academia, comprou Whey, e visitou uma nutricionista. No café, comia batata doce. No almoço, escondidinho de batata doce. Na janta, salada de batata doce. Em três meses se fortaleceu, ganhou bíceps e trincou o abdômen. Foi quando perdeu seu emprego no buffet infantil.

maxresdefaultAs mães, quando viam um Pikachu malhado na porta do buffet, pensavam que o local se tratava de um clube de strip feminino, e o movimento do estabelecimento passou a decair. O fato deu uma nova percepção a Pikachu; de animador de festa de criança à gogoboy, Pikachu transpôs o campo da noite, bebidas e prostituição. Homens e mulheres formavam filas para se aproveitarem de Pikachu. Todos queriam comer Pikachu. Pikachu estava famoso no submundo, era uma celebridade clandestina, uma Bruna Surfistinha que dava choque. Sua fama, porém, o cegou e o levou à luz do Superpop. Luciana Gimenez e sua platéia não o perdoaram no fatídico programa que, mais uma vez, fez o pokemon ser alvejado no fundo do poço.

Novamente julgado pela sociedade, rejeitou uma entrevista ao programa do Gugu e um reality na RedeTV, para largar tudo e fugir para o litoral. “Algodão doce, oh o algodão doce!”, continuou gritando o já barrigudo Pikachu, na esperança de algum pai irresponsável acatar o pedido de um filho mimado e comprar seu produto. Pisou em um papel jogado no chão. No verso, uma foto de Ash. Candidato a deputado federal. “Pela continuidade da família brasileira”, estampava letras em verde e amarelo. Desiludido, resolveu ir pra casa. Ainda precisava visitar Charmander no hospital, vítima de ataque de manifestantes que o chamaram de petralha, por estar de vermelho na Av Paulista. Pikachu era gay, amarelo, sem estudos, e vivia no Brasil. Pikachu estava fodido. Por um momento, desejara apenas ter nascido Peppa Pig. Ou na Suécia.

Sobre Luks Ramos

Autor do livro "Frentes e Versos" (http://www.literabooks.com.br/frenteseversos), pela LiteraBooks, Lucas tem uma imaginação com síndrome do pânico. Não há espaço interno que a satisfaça. Então conversaram e lhe foi oferecido o papel. Depois foram convidados a publicar suas belas insanidades por aqui. Aceitaram.

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