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sexta-feira , 26 maio 2017
O pleno exercício da liberdade é a dúvida.

O pleno exercício da liberdade é a dúvida.

Ilustração do alemão Sergio Ingravalle (http://www.maivisto.de/)

Ilustração do alemão Sergio Ingravalle (http://www.maivisto.de/)

Quem disse que hoje é hoje, que é chão isto embaixo de nossos pés, céu sobre as cabeças, ar o que respiramos, barulho o que nos sai da boca pelas cordas vocais (que são cordas vocais), duro o muro, molhada a água, frio o gelo, e mais tudo o que é verdade que é, que existe?

Não importa rastrearmos a origem dos dados que aceitamos como real, mas, sim, o fato de o aceitarmos sem muitos questionamentos e, sobre tal aceitação, consolidarmos nossas vidas, estabelecermos tranquilamente a rotina alienada de nossos dias. Essa decisão – ou não, pois é pouco provável que lembremos (se é que houve) o momento em que fizemos a escolha de aceitar tais verdades tão óbvias – é a origem de nossa mais sólida prisão: o mundo possível.

Tudo o resto é impossível. Veja:

Sou feito de carne, sangue, ossos, etc, circunscrito ao espaço em que se delimita meu corpo, logo, é impossível que eu seja feito de nuvem, pedras, vidro e ilimitado. A rocha é dura e mássica, portanto, é impossível que meu corpo a atravesse. 1+1=2, impossível ser 8. Nem se pensa sobre isso, são fatos, é óbvio e ponto.

Será? E se não?

darwin_charles_1O ponto de partida da investigação científica, assim como da concepção artística é a dúvida, a reflexão além das bordas do universo possível (tão cheio de contradições e lacunas que não merece credibilidade se olhado com cuidado), em busca de ampliar esse horizonte, talvez botá-lo de cabeça para baixo, como fizeram Copérnico, Newton, Pascal, Darwin, Nietzsche, Guimarães Rosa. Questionar o inquestionável, o evidente, pode fazer com que notemos falhas tão óbvias que farão com que passemos para a história como idiotas (como puderam crer que a Terra era achatada e centro do Universo?, o Homem feito de barro?, a epilepsia uma possessão demoníaca?). Sobre quantas verdades estúpidas o homem já solidificou sua vida, inteira!

A verdade nos é dada por meios bem suspeitos, como a mídia, por exemplo. Grandes corporações com evidentes interesses mercadológicos e políticos controlam os jornais, emissoras de TV, rádio, revistas, escolhendo o que vira notícia e o que não. Tudo verdade, talvez, mas qual parte dela, ou o que se deixou de lado para evidenciar a verdade que foi transmitida? A mídia faz um recorte de mundo, da realidade, e é sobre esse fragmento que consolidamos nossas opiniões sobre a realidade em que estamos. Só para citar uma (das mais importantes) das fontes de informação que nos constrói a realidade.

Nicolaus Copernicus Tornaeus Borussus Mathematicus, por Theodor de Bry e Jean-Jacques Boissard, 1597

Nicolaus Copernicus Tornaeus Borussus Mathematicus, por Theodor de Bry e Jean-Jacques Boissard, 1597

A internet, embora tenha oferecido uma possibilidade de discursos alternativos (fora da mídia) ganharem audiência, não tem ajudado muito, com a enxurrada de informações especulativas, notícias falsas, distorções, numa anarquia que contribui ainda mais para apenas uma certeza: temos que duvidar por princípio! De tudo!

Há na Dúvida um caráter caótico, uma graça em criar caso onde há ordem, que produz uma sensação única de contravenção, de estarmos fazendo o que não deve. Não é à toa que o pensamento maniqueísta religioso costuma colocar a Dúvida no campo do Mal (o Diabo é o pai da dúvida), criando por princípio a impossibilidade de questionarmos as verdades que nos sejam impostas, a primeira e mais eficiente norma de controle de todas. Contudo, essa mitologia que explica a estrutura de dominação do discurso religioso, também mostra o tamanho do perigo que a Dúvida engendra, pois questionar tira o chão, torna tudo incerto, nebuloso, escuro (dirão alguns), ao contrário da certeza que tudo esclarece. Nessa perspectiva, o mito do Bem como certeza e Mal como dúvida ganha outra dimensão.

A liberdade é escura, nebulosa, oca, perigosa, muito perigosa. No terreno da dúvida, onde se exercita a mais plena liberdade, nada será como se está acostumado. Ali residem permanentemente os loucos e, de visita, os artistas e cientistas, em suas buscas incessantes. É lá o reino das dádivas mais raras.

Duvida? Experimente duvidar!

Haverá tempo atrás da origem?
E após o fim, o que virá?
Será possível haver a linha invisível que os liguem?
E embaixo do fundo do poço?
Haverá mais força além do máximo esforço?
Antes da alma, da víscera, do instinto,
haverá quem manipule as molas do que eu sinto?
Quais serão as criaturas que povoam o impossível,
o nada,
o limbo?
Haverá um código sobre o qual se estrutura a vida?
E o que acontece quando ela termina?
Terá sobrado alguma lasca além da última migalha destroçada da mais mínima partícula que se viu?
Depois do infinito caberão mais mil?

Duvido mais tantas todas dúvidas ainda,
das mais profundas às estúpidas
(às vezes tão parecidas),
absurdamente necessárias:

Duvido tudo que sei, quero, tenho, vi,
com o risco de perder chão pão pai mãe, a ti,
de perder-me de mim
até que não reste mais nada,
até mesmo minha voz questionada,
teia de vozes que somos, enfim,

que se pensava a terra plana,
o homem barro,
a pele raça,
a poça rasa
até perder-se o fundo
e, conforme cada farsa se desfaça,
vemos um novo rosto por detrás da agora descoberta máscara,
talvez ainda máscara, revelada
depois do tempo que se nos passa
e a dúvida duvidada levante a ânsia de vasculhar essa carcaça:

Assumo o risco: Duvido!

Adriano Dias

Sobre Adriano Dias

Adriano Dias é um dos idealizadores do projeto, articulista e mergulhador no "mar de signos" em busca de formas curiosas e relevantes de cultura. Também leciona literatura, gramática e técnicas de redação como profissão.

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