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sábado , 18 novembro 2017
O mundo é das mulheres: a epifania de Pombinha

O mundo é das mulheres: a epifania de Pombinha

capacho_a_mulher_dos_sonhos_1Há algumas verdades que para serem aceitas precisam de uma boa dose de humildade e franqueza, capacidade de aceitar nossas limitações como animais que somos, sujeitos a decisões que não vêm do intelecto, mas de algo mais instintivo e natural. Por mais que sejamos éticos e morais, agimos por instinto muitas vezes, pulsões que contrariam, ou melhor, não respeitam moral ou ética nenhuma. Aceitando esses princípios, ler um livro naturalista perturba menos e permite reflexões fantásticas. É o caso da verdade pura e simples que Aluísio Azevedo expõe em sua obra prima “O Cortiço”: somos vítimas do desejo e a percepção dessa força é um poder que dá o controle dos homens (da humanidade). Em um mundo ainda machista, ser dona da própria sexualidade ainda é sinônimo de perdição moral, mas também permanece uma fonte de poder impressionante. Já discutimos algo parecido no artigo As difíceis, a gente lambe o chão!. Saiba como um dos maiores escritores brasileiros construiu essa tese:

Featuring work by Kevin Chupik, Lawrence Schiller and Gerard Basil Stripling http://www.brettwesleygallery.com/the-power-of-seduction/

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É um clichê ridículo, simplista, dizer que as mulheres mandam no mundo por conta do desejo incontrolável que despertam nos homens, tornando-os estúpidos quando tomados por essa força, portanto, quando sabem usar da sedução tomam para si o comando dos que comandam o mundo. Como determinista e darwinista que era, Aluísio Azevedo parte do princípio que os instintos, a fisiologia interfere no comportamento humano, que o intelecto se submete à satisfação de certas pulsões primitivas como o desejo sexual, por exemplo. Durante todo o livro o autor compara o comportamento dos personagens com animais como cobra, cachorro, porcos, etc., de modo a deixar bem evidente que em determinadas horas, quem decide as ações é o animal, não o homem (ser civilizado, ético, controlado). Como o espaço é um cortiço, temos narradas as aventuras de pessoas simples e suas paixões cotidianas. A personagem que vai conduzir o leitor à epifania sobre o poder da mulher é Pombinha.

Pombinha era uma moça delicada, bem tratada pela mãe e pela vizinhança. Cuidada como princesa, cresceu como única estudiosa e alma pura da moradia coletiva. Como educada e letrada que era, escrevia cartas para os corticeiros, passando em letras as amarguras, desejos, implorações, ofensas de cada uma das almas simples que moravam ali. Conhecia a fundo as relações humanas, mas somente literariamente, sem paixão, como menina que transcreve um ditado. Pombinha tinha uma curiosidade na obra, não menstruava.

o-corticoO narrador não precisa a idade da moça mas é possível, por indícios, especular que circula por volta dos 18 anos sem ainda “se tornar  mocinha”, o que gera grande aflição à sua mãe e cuidados de todos os moradores do cortiço. Durante a obra, Pombinha vivencia como escritora de cartas ou espectadora da rotina diária do cortiço várias desavenças amorosas, brigas, flagrantes de traição, sem tomar partido ou demonstrar qualquer reação relevante, é apenas uma personagem periférica. Até seu clímax.

A madrinha de Pombinha é uma prostituta que vive com o luxo dos homens que expropria sem escrúpulos (como Marcela de Memórias Póstumas de Brás Cubas). Numa tarde em que vai visitar a madrinha com a mãe, quanto esta adormece na sala, Pombinha é praticamente violentada pela madrinha em uma cena tórrida de homossexualismo. Transtornada, volta para casa e, no dia seguinte, deitada à grama e durante um passeio, por meio de um sonho lúbrico, Pombinha acaba menstruando.

O Cortiço vem abaixo, todos comemoram, a mãe delira, manda chamar o noivo que esperava o milagre para confirmar o romance, marcam data. Pombinha vai casar. Toda a atenção voltada à maturação da menina cujo corpo agora sabe, por experiência e fluxo, o que é o SEXO. Enquanto todos realizam os preparativos para o casamento, Pombinha acolhe um vizinho atormentado que lhe pede que escreva uma carta. Um brutamontes que havia expulsado a pauladas a mulher após flagrá-la em traição. O homem esbraveja, xinga, mas, no fim, em lágrimas, implora que a ex-mulher retorne a ele, que a espera. É o “clic” para Pombinha ter sua epifania: que poder tinha em mãos, ou melhor, em outro lugar do corpo! Quantos machos brutos viu se esfoliarem, brigarem acabarem com a própria vida por conta de um rabo de saia. A que se sujeitavam os mais valorosos e valentes homens apenas por uma mulher!

“Sorriu. E no seu sorriso já havia garras.” – frase mágica de Azevedo para expressar o tamanho da descoberta da personagem quanto a seu papel no mundo, o poder que detém, o que pode fazer com esse poder. É só um vislumbre da magnitude de sua percepção. Em seguida se entristece pois sabe que não mais poderá amar seu noivo, descobrindo nele a mesma inferioridade que percebeu em todos os demais homens. Após 3 anos de casada, separa-se de João da Costa e torna-se prostituta com sua madrinha, Léonie, vivendo os maiores luxos e toda a autonomia e independência de uma mulher que soube compreender em toda sua plenitude o poder que tem.

12starPombinha não é a primeira personagem feminina a descobrir seu poder de sedução, Balzac tem uma galeria enorme, mas seu processo de revelação é, talvez, um dos mais precisos da literatura. Perturbador, pois somos resistentes a aceitar o quanto nos submetemos aos instintos, como somos burros e manipuláveis quando se trata de pulsões primitivas, ficamos incomodados com a precisão fria da verdade de Pombinha. Talvez na época houvesse escândalo com o destino da personagem, talvez não houvesse alternativa social para alguém com essa percepção poderosa, mas não deixa de ser contemporâneo o preconceito em torno da mulher que é dona da própria sexualidade.

Embora estejamos mais de século à frente do romance O Cortiço, vivendo em um tempo em que parecem absurdos nossos preconceitos quanto à cor de pele e gênero, estes ainda persistem poderosos, determinantes, não permitindo às mulheres que façam o que bem entendam com sua sexualidade, na mesma medida que ainda vemos machos altivos e vigorosos sucumbindo como presas fáceis nas mãos de fêmeas que usam com astúcia seu poder de sedução.

Aluísio Azevedo, assim como seus companheiros de naturalismo, também apresenta argumentos em outros romances, como Casa de Pensão (“Para conquistar as mulheres são apenas quatro coisas necessárias: audácia, boas relações, um pouco de inteligência e não ser seu marido!”), em favor das manipulações que os homens astuciosos são capazes de fazer para dominar o coração das mulheres, mas isso é outra história, para um outro artigo. O cerne do fisiologismo usado por autores do século XIX em suas obras é a reflexão do quanto somos sujeitos à nossos instintos, indefesos e manipuláveis quando estimulados nas pulsões primitivas que constituem a condição animal do homem.

Curioso perceber que as mesmas percepções que escandalizaram o século XIX e motivaram cientistas a desenvolverem estudos sérios, como o médico austríaco Freud, com sua pesquisa sobre a psique que deu origem à Psicologia como ciência; ainda hoje geram surpresa, não foram digeridas nem aceitas e caímos nas mesmas armadilhas descritas há séculos.  Desde sempre, o mundo é de quem sabe brincar com nossas franquezas instintivas, é das Pombinhas.

Leia também: As difíceis, a gente lambe o chão!

Sobre Adriano Dias

Adriano Dias é um dos idealizadores do projeto, articulista e mergulhador no "mar de signos" em busca de formas curiosas e relevantes de cultura. Também leciona literatura, gramática e técnicas de redação como profissão.

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