sudo yum install newrelic-php5 sudo newrelic-install install
quarta-feira , 21 fevereiro 2018
O Evangelho de Barrabás: uma reflexão hilária sobre a vida de Jesus
Cena da escolha, com Pôncio Pilatos ao centro.

O Evangelho de Barrabás: uma reflexão hilária sobre a vida de Jesus

A menção à Jesus aparece apenas fortuitamente ao longo dessa obra deliciosa, mas nem é necessário muita perspicácia para perceber que todo o romance trata de refletir a vida de Cristo, embora o personagem principal seja Barrabás, seu opositor histórico fundamental. Com esse livro genial, o escritor José Roberto Torero inscreve seu nome ao lado de mestres como José Saramago, retratando uma possível e engraçadíssima leitura do personagem histórico mais importante do mundo ocidental.

Cada vez mais racionalistas, tem se tornado comum a revisão de eventos todo o passado histórico que herdamos por um viés mais crítico, conforme o avanço tecnológico tem permitido. No caso da narrativa bíblica, muito se especula sobre os fenômenos místicos nela descritos. Não são poucos os documentários históricos que tentam desvendar os enigmas transcendentais descritos no livo sagrado dos cristãos. José Roberto Torero e seu parceiro Marcus Aurélius Pimenta realizaram também sua pesquisa crítica da vida de Jesus, tomando como referência a época em que este viveu e o contexto cultural em que sua história se inscreveu.

Barrabás surge como alegoria irônica da própria história de Cristo. O personagem percorre a mesma trilha sagrada do Messias, mas por um viés de acasos, acidentes e astúcia. Enquanto se lê a aventura engraçadíssima criada pelos autores, vai crescendo a suspeita de que há ali uma tese sobre possíveis interpretações mais racionais acerca dos mistérios que envolvem a vida de Jesus. Milagres como transformar água em vinho, andar pela água e curar (ou não) milhares de enfermos ocorrem na trajetória de Barrabás, na mesma ordem que os evangelhos narram a saga de Jesus Cristo, mas com o seu oposto tudo é fruto da sorte ou da sua capacidade ímpar de manipular seus ingênuos e crédulos contemporâneos, com muita esperteza.

Barrabás é um personagem interessantíssimo na mitologia cristã, embora o texto bíblico pouco fale a seu respeito. Foi ele o escolhido pelo povo para ser solto, ao invés de Jesus, no na celebração da Páscoa. Conta o evangelho que Pôncio Pilatos, o administrador romano de Jerusalém, teria simpatizado com Cristo e gostara da ideia de crucificá-lo, teria ficado surpreso ao ver o povo judeu escolher (por incentivo dos rabis no meio da multidão) a libertação do famoso assassino e ladrão Barrabás em detrimento de seu profeta, por isso, lavou as mãos sobre o assunto, deixando a responsabilidade da morte com o povo.

Diferente do humor ácido e agressivo de Saramago em relação à Igreja Católica e seus dogmas, Torero e Pimenta somente brincam com uma hipótese plausível de como realmente as coisas poderiam ter ocorrido na época, para depois receberem o verniz sagrado da santidade do “Filho do Homem”, transformando-se em mistérios dos poderes divinos. A linha de argumentação dos dois é semelhante às especulações sobre o evento em que Moisés teria salvo o povo hebreu dos egípcios abrindo o Mar Vermelho com seu cajado e com o auxílio do poder de Deus (em tese seria um fenômeno natural cuja manifestação o “”profeta” saberia por experiência quando ocorria).

O sucesso da obra se deve à maestria com que a dupla constrói histórias (o que já ocorrera com “O Chalaça” e “Terra Papagali”), brinca de criar falas a moda da época, mas atualizada, de modo a criar uma leitura simples, fácil e que remete ao contexto em que a história se passa. O uso da artimanha humorada de criar uma lenda para o texto (de que seria um manuscrito encontrado, como os manuscritos do Mar Morto), brincando com as pesquisas arqueológicas sérias, defende a obra do ataque de possíveis acusadores de blasfêmia, de que o livro desrespeita a imagem histórica de Jesus Cristo, pois fica claro se tratar de uma grande peça de humor (o que permite que cristãos a leiam sem se sentirem particularmente agredidos).

Um livro para ler na praia, nos fins de tarde, antes de dormir. Daqueles que te pegam desde a primeira página e você tem vontade de largar o trabalho para ler mais um pouquinho. Leve e divertido, uma das formas mais eficientes de se fomentar o espírito crítico.

Sobre Adriano Dias

Adriano Dias é um dos idealizadores do projeto, articulista e mergulhador no "mar de signos" em busca de formas curiosas e relevantes de cultura. Também leciona literatura, gramática e técnicas de redação como profissão.

Um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Scroll To Top
sudo rpm -Uvh http://yum.newrelic.com/pub/newrelic/el5/i386/newrelic-repo-5-3.noarch.rpm