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sexta-feira , 28 julho 2017
O Eduardo que não amava Mônica

O Eduardo que não amava Mônica

renatoEduardo abriu os olhos ainda na introdução.

Ele quis se levantar, e se levantou, porque Eduardo adorava acordar cedo e o sol da manhã.

Eduardo acordava cedo porque era ali, na introdução, no preâmbulo instrumental, que não havia uma voz sequer que ditasse sua vida. Ouvia o som agudo da guitarra de Renato Russo quando se pôs a correr. Exausto, mas corria. Era todo dia a mesma coisa. Eduardo tinha que viver a vida cantada por uma penitência que não saía de sua boca. Ele existia na medida em que palavras eram sopradas por algum reprodutor sonoro que alguns chamam de rádio, mas ele chamava de destino; de Destino.

Eduardo não amava Mônica, mas haviam escrito isso por ele. Na verdade, Eduardo já estava saturado de Goddard, Caetano e de Rimbaud, e todo o blábláblá pseudo-cultural de Mônica. Ele achava a tinta no cabelo dela brega e, em todo fim de música, olhava para os seus gêmeos desconfiado da semelhança das crianças com o carinha do cursinho. Mônica era egoísta, ciumenta e tinha bafo. Ele gostava mesmo era de Natália.

Ilustração de Diana Pedott (https://www.behance.net/dianapedott)

Ilustração de Diana Pedott
(https://www.behance.net/dianapedott)

Eduardo a via toda vez no parque da cidade, onde ela observava as flores com um sorriso no rosto e o tênis desamarrado, mas Renato nunca tentou rimá-los. Natalia existia na inexistência de Eduardo. Agora ele corria. Corria cansado, na esperança de escapar do fardo de seu triste Destino. A música também corria, mais rápida, e já não havia introdução. Renato impunha sua inflexível poesia da qual Eduardo pleiteava escapar. Mas o Destino gritava sem dó, sem ré, sem mi, sem sol. Eduardo só desejava voltar para a introdução, para o sol da manhã, para o trecho em que se sentia feliz, perdido com Natália nos pensamentos.

Deixou o camelo encostado com cadeado no poste e foi na direção de Mônica, que estacionava sua moto, como incansavelmente cantava Renato. No caminho, avistou Natalia logo adiante, com riso bobo e uma cara de risoto frio, observando a borboleta que pousara na flor amarela. Então, de repente, a música parou. No lugar do som, o silêncio. Eduardo havia mudado seu percurso e desacoplado das pregas vocais que preconcebiam sua sina. Ele, acostumado a ser o que não era, conquistou soberania e compôs sua própria melodia após ser tocado pelos detalhes dos versos de Natália. Foi na direção da amada, caminhando sobre a gravidade que insistia em tentar arremessá-lo de volta à velha canção, e lhe disse um oi. Fez uma piada sobre sua blusa de renda e depois conversaram por horas sobre bobagens impossíveis de se compor.

Naquele instante, aquele Eduardo viu que ele mesmo poderia cantar o seu Destino, e que não havia ninguém melhor para fazê-lo. Nem mesmo Renato Russo que, apesar de gênio, nunca perguntou o que Eduardo queria. Eduardo saiu do caminho trilhado pra si, decidiu pegar à esquerda, adentrar no desconhecido, tocar a sexta corda e desafinar fora do tom. Ele estava feliz. Quem um dia irá dizer que ele não tinha razão?

Para quem não entendeu o contexto, ou ficou morrendo de vontade de ouvir a música a que a crônica se refere, vai lá a “sina” de Eduardo transformada em filme para campanha da VIVO:

Sobre Luks Ramos

Autor do livro "Frentes e Versos" (http://www.literabooks.com.br/frenteseversos), pela LiteraBooks, Lucas tem uma imaginação com síndrome do pânico. Não há espaço interno que a satisfaça. Então conversaram e lhe foi oferecido o papel. Depois foram convidados a publicar suas belas insanidades por aqui. Aceitaram.

Um comentário

  1. Quero aprender a escrever assim.
    Admiro sua forma de ler o mundo.
    O que recomenda para um começo?

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