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sexta-feira , 23 junho 2017
Nunca quis ser professor, mas amo a profissão que me escolheu!
Cena final de "Sociedade dos Poetas Mortos", em que o professor demitido despede-se dos alunos.

Nunca quis ser professor, mas amo a profissão que me escolheu!

dv1453015.jpg– Poxa, você é tão inteligente, por que escolheu ser professor?

“-Oh Captain, my Captain!”

Que paradoxo incrível é a profissão de professor. Consegue conciliar o desprezo social com a admiração mais pura. Somos pobres coitados maravilhosos e admirados! Uma parcela dessa admiração é piedade, outra, mais sólida, é gratidão e reconhecimento. Agora quanto ao desprezo, é todo fruto de uma sociedade que valoriza a posse material, o poder aquisitivo e o status profissional, mas nós, professores, somos peça fundamental nessa mesma sociedade e nos valores que nos desconstroem a carreira. Mais: poucas carreiras conciliam tanto críticas severas e pessoais quanto elogios e carinho sinceros e grandiosos.

Não é a toa que a maioria dos filmes lindos sobre educação contam histórias de professores que fazem milagre com uma turma desgraçada, realizam um trabalho incrível que os tornam dignos de virar filme, mas, nos créditos do final da película, surge a informação de que após aquele ano tomaram outro rumo nas suas vidas, laureados com o sucesso de seu sacrifício. Duvida?

cena do filme "Escritores da Liberdade"

cena do filme “Escritores da Liberdade”

Sociedade dos poetas mortos – lindo, o professor Keating é demitido no final.
Escritores da Liberdade – Erin só deu aulas nesse ano. Criou uma fundação e virou filme.
Clube do imperador – O aluno desgraçado, que vira Senador, continua desprezando o professor até quando o homenageia.
Escola da Vida – O fabuloso Mister D. tem câncer e sabe que vai morrer. Morre no final.
Ao mestre com carinho – O professor Thackeray só decide permanecer na profissão por que foi desafiado.

Eu não escolhi ser professor! A maioria de meus colegas não escolheu também, os mais felizes na carreira não escolheram, fomos escolhidos. É um emprego, precisamos trabalhar. A remuneração é razoável, temos 2 férias, emendas de feriados e raramente ficamos sem trabalho. Mas é uma carreira com algumas peculiaridades que fazem com que alguns profissionais simplesmente se encaixem magicamente na roupagem, como que feitos para ela, funcionando no sistema como um artista numa orquestra. Pelo tempo que estou nela, percebo que esses casos costumam ter origem em caras que nunca, em seus sonhos adolescentes, planejaram a docência como profissão.

"Ao mestre com carinho"

“Ao mestre com carinho”

Sou crescido, assim como boa parte dos professores em atividade no Brasil, numa época em que professor vem sofrendo um processo de degradação contínua, seja por conta das políticas públicas negligentes, governantes que mais se preocupam com obras que envolvam empreiteiras que empreendimentos que desenvolvam o ser humano, seja por um processo de crescimento descomunal dessa instituição em nosso país. Durante os anos 80 e 90 a Escola passou de instituição elitista, que atendia uma parcela pequena da sociedade, para estágio obrigatório a todas as crianças, sobrecarregando o sistema de ensino sem um planejamento condizente.

Da estrutura enxuta e consolidada de meados do século passado, onde filhos de famílias estruturadas e com razoável poder aquisitivo depositavam seus filhos, confiando plenamente às mãos do professor a responsabilidade e PODER de educá-los; passamos a um público de formação familiar mais heterogênea, muito mais numeroso, cujos valores e modelo de vida cotidiana não são os mesmos dos professores. O salário encolheu, o poder foi minguando, os resultados descendo a ladeira e a culpa recaindo sobre os ombros do profissional que realizava o fim último do processo educacional, na sala de aula: o professor.

Professor Girafales

Professor Girafales

Na sociedade da estatística, os resultados são indicadores inquestionáveis. Desempenho ruim = sistema ruim. Dividimo-nos entre os que culpam o docente e os que se compadecem com seu sofrimento. Resultado, a profissão foi demonizada. Lembro de brincar de professor quando criança, mas quando adolescente a brincadeira desapareceu do imaginário. Não tive um conhecido que tenha manifestado o plano de dar aulas quando fosse adulto e tivesse que abraçar uma carreira. Nem eu o fiz.

Virei professor por necessidade, formado em Letras, tarde descobri que a  carreira de escritor, revisor de editoras ou algo relacionado ao universo do objeto Livro era romântico demais e irreal profissionalmente. Passei em dois concursos do Estado e, vai lá, virei professor. Caí numa escola num bairro periférico de São Vicente, com as turmas mais insanas, classes de 50 alunos, classes de recuperação de ciclo (nome bonito para repetentes), e criancinhas de 5ª série para dar aulas de inglês.

bonfire-108Não sabia o que fazer, não sabia o que ensinar, como ensinar, como era a dinâmica. Ninguém sabe dar aulas até que entra em uma sala, estão os 50 doidos olhando para você, o comandante, capitão, show man, mestre de cerimônias, carcereiro, por fim, professor. Esperando aflitos e ansiosos, desafiadores, vão testar, buscar descobrir os limites que terão direito a explorar, perturbar sadicamente até ver o maluco perder a razão. Chapei a lousa! Ufa, que chão sólido sobre o qual pisar. Enquanto o giz ia comendo solto, organizava gradativamente a dinâmica da aula, refletia o que estava fazendo ali, o que era esperado de mim, o que sabia e deveria explicar, como fazê-lo, as ideias foram surgindo, de repente falava, seguro, firme, intenso, vibrante, ao mesmo tempo em que fazia sentido para mim, construía sentido para eles e assim foi. A primeira, segunda, terceira, nunca parou esse processo. Já escrevi uma série de três artigos refletindo a dinâmica ensino x aprendizagem:

Para que serve o que se ensina?   –    Por que eu tenho que aprender isso?   –   Para que eu tenho que ensinar isso?

Professor Keating provocando...

Professor Keating provocando…

Mas isso não é ser professor. Professor dá aulas, ensina o que se deve aprender, passa o ponto e faz os exercícios, exige memorização, cobra disciplina, bota ordem no barraco. Minhas aulas sempre foram uma zona completa. Violão, palavrão, piadas, desconstrução de paradigmas, provocação, eu não sei ser professor. Eu não sou professor, por isso, talvez, dê tanto certo, embora já tenha me custado várias adversidades e até um emprego (Acabo de ser demitido da “escola com que sempre sonhei”). Sempre penso o que é aquilo que sou obrigado a explicar, que sentido tem na minha vida, pode ter na de cada indivíduo a minha frente, o impacto que o conteúdo pode ter na visão de mundo, no desenvolvimento do senso crítico e dos poderes mentais que nos permitem agir competentemente em sociedade quando adultos.

Assim como eu, descobri vários outros colegas que atuam imersos na docência, indiferentes ao estereótipo de professor que a sociedade construiu e espera que esteja ali na frente. Esses caras são reconhecidos, veja que ironia, como os melhores professores das escolas em que trabalham. Não escolheram a profissão, acabaram nela por contingências da vida adulta. Tivemos outros planos ambiciosos quando jovens, nada que fosse desprestigiado como a docência, “dar aulas”, até trabalhamos em outras profissões. 

Arrumada a vida financeira, conquistando alguns privilégios de consumo, poderíamos ter, com as mesmas contingências que nos obrigaram a “dar aulas”, tomado outro rumo novamente, mas fomos abraçados pela dinâmica para a qual parece que temos um talento inato, de repente passamos a descobrir que somos bons nisso, que sabemos bem o que é para ser explicado, de que forma a explicação surte mais efeito, como encantar e provocar, tornar milagre o conhecimento.

É assim: simplesmente, somos professores!

Sobre Adriano Dias

Adriano Dias é um dos idealizadores do projeto, articulista e mergulhador no "mar de signos" em busca de formas curiosas e relevantes de cultura. Também leciona literatura, gramática e técnicas de redação como profissão.

3 comentários

  1. ALDECY ALMEIDA CARNEIRO

    Boa noite.
    gostei muito desse texto. Citei uma frase do senhor no meu artigo do TCC. Gostaria de saber qual data dessa publicação. obrigada

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