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sexta-feira , 26 maio 2017
Não se trata de fidelidade: escolho a mesma pessoa há anos

Não se trata de fidelidade: escolho a mesma pessoa há anos

e341a80468f7eb959a3c5e12c3eb3c31Se há uma marca da contemporaneidade é a exposição dos conceitos pré-concebidos à expiação pública. Já desde a modernidade proposta por W. Benjamim (já faz 100 anos) se propunha que os tempos são de “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Todas as instituições estão em crise e estão sendo refletidas em suas funções fundamentais e suas reais necessidades. Não é mais suficiente aos ouvidos e cérebros a resposta “porque sim”, o que desconstrói boa parte do que há de estabelecido em nosso sistema constituinte: escola, Estado, família, religião, o sentido da vida. Esse modelo de revalidação das relações que temos com o mundo tem dois planos possíveis de visão: O mundo está acabando – ou – Um novo mundo está começando.

No que diz respeito ao amor, aos relacionamentos que envolvem paixão, sexo, o núcleo substancial da instituição família (ao menos em ideal), a crise é evidenciada pela facilidade com que essas relações terminam, quando a tradição manda que sejam “até que a morte os separe”. Os clichês da atualidade são: a “família” faliu, “ninguém respeita mais o casamento”, “as pessoas não querem saber de compromisso”, “não existe mais amor como antigamente”. Se levarmos em consideração o carinho e afeto que o casal tem e mantém entre si durante a relação, tais verdades populares não têm o menor respaldo na realidade, na medida em que uma união que se faz duradoura por conta da obrigação, da pressão externa e não da decisão contínua dos envolvidos, só pode se configurar falsa e, ao longo do tempo, opressora, deteriorante. Não afirmo que todas as relações de antigamente foram contínuas por pressão e que, desgastadas, tornaram os envolvidos velhos amargos e infelizes, mas uma parcela considerável delas sim – talvez a mesma contabilidade das relações frustradas de hoje, que culminam em separação.

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Ilustração do americano Chad Gowey:
http://www.chadgowey.com/

Pelo viés contrário, é possível defender a tese de que estamos vivendo tempos em que as relações duradouras o são, cada vez mais, por conta da permanente escolha, decisão voluntária e franca de continuidade por parte do casal. Ou seja, com a possibilidade crescente de se fazer o que quiser da vida, de acordo com a empobrecida pressão social pela relação monogâmica e duradoura, decidir pela continuidade não é mais um ato impensado, automático e inevitável, muito pelo contrário, é o encontro verdadeiro de uma relação que se quer ainda e mais e mais e por mais tempo, talvez até que a morte os separe, mas não por que o padre falou,  pelo acaso da morte.

O mesmo se pode dizer da fidelidade. A dinâmica das relações amorosas da contemporaneidade é tão revolucionária e permissiva que é comum ouvir quem diga “É um desperdício” para uma união monogâmica. Contudo, justamente essa liberdade permite que se reflita com mais profundidade as escolhas individuais e faz com que a relação monogâmica se torne uma tara fantástica, não mais uma imposição. Deixando claro que fala-se aqui de um processo em curso, dada a relação com algumas décadas atrás e prevendo a continuidade dessa direção, ou seja, ainda sentimos ciúmes, queremos e exigimos fidelidade tradicional nos relacionamentos que estabelecemos, mas o território da franqueza está cada vez mais acessível. Assim, vem surgindo uma geração de casamentos, ou qualquer outro tipo de relação duradoura (nem o vínculo religioso é mais suficiente como conector sólido), cuja continuidade é fruto de um querer mútuo legítimo, diário.

Fique claro que não se trata de amores ideias, de novela, mas relações concretas, cotidianas. Não é uma aura de magia abençoada que unge os escolhidos, mas justamente a predisposição cada vez maior à franqueza que permite se fazer melhores escolhas, desde o começo, decisões mais maduras, casais cujas bases não foram estabelecidas por pressupostos externos e estereotipia, mas dentro de suas particularidades, descobertas em diálogos madrugada adentro, após o sexo, ou antes. Casais que escrevem sua história com originalidade e autenticidade, tão mergulhados na relação que os une que nem percebem que acabam, externamente, parecendo tão tradicionais quanto os mais românticos modelos da história. Em tempos extremos, quem sabe a face do “fim da família” não se revele a do “relacionamento perfeito”. Só insisto que, diferente do idealismo dos românticos, os atuais têm suas bases na escolha consciente e bem complexa da mesma pessoa o tempo todo. Nesse caso não se trata mais de fidelidade, mas de uma circunstância tão nova que ainda nem tenha nome que dê conta. Como no poema abaixo, uma monopoligamia.

Redigi três poemas sobre essa temática, da relação que se decide voluntariamente. O primeiro faz um diálogo com a musa como que explicando-lhe sua fidelidade, sem tocar no termo para não ser confundido com o sentido que ele carrega tradicionalmente, de escolha involuntária. Já o segundo, aborda o momento epifânico em que o reencontro ocorre, fazendo girar a roda da continuidade para o relacionamento permanecer. O último brinca com a dualidade da relação que compreende a amizade, o companheirismo diário sem prescindir da malícia e tensão sexual da paixão:

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Ilustração de Sophie Mintz
http://sophiemintz.tumblr.com/

I

“Fico só contigo
Não por comodismo
Aversão ao perigo
compromisso
Nada disso
Pelo contrário
Nem é um só sentimento
São vários
Um para cada uma de você
as explícitas
e as não ditas
Qualquer outra que se lixe
Como és infinita
Realizo contigo todo fetiche
Namoro uma de ti por dia
Em minha monopoligamia”

 

Ilustração do Italiano Francesco Tortorella

Ilustração do Italiano Francesco Tortorella: http://www.francescotortorella.com/about/

II

“Escolho me casar
sempre que me apaixono.
Às vezes dura mais,
talvez uma hora, um outono.
Porém, a rotina logo desfaz
e, inevitavelmente, me canso.
Cansamos os dois,
enredados no ranço
que nos obriga, pois
que não estamos mais plenos,
a desistir, insaciáveis que somos,
de uma relação menor que imensa.

E é quando a gente pensa:
Acabou a magia!
Que uma força incomum, densa,
Descontrola e contagia
impulsiona e atordoa
cada partícula que enxerga
quem, mesmo a mesma pessoa,
nunca vi tão bela.
Então, o único balbucio que consigo
É suplicar outra vez:
– Quer casar comigo?”

 

III

Ilustração da indonésia Yuschav Arly (http://instagram.com/yuschav)

Ilustração da indonésia Yuschav Arly (http://instagram.com/yuschav)

Ela me cuida, embala, entende, aumenta
enquanto a outra unha,
arde e ofende à revelia.

Ela merece meu respeito, senhores!
ou deveria,
enquanto a outra me suja,
envergonha meus pudores,
enche-me de culpa

Aqui, a flor terna de meus dias
Ali, o ácido, o imprevisto

Eu tento, algo em mim quer,
mas não resisto à essa raposa:
acabo sempre traindo a santa da minha mulher
com a vadia da minha esposa.”

Sobre Adriano Dias

Adriano Dias é um dos idealizadores do projeto, articulista e mergulhador no "mar de signos" em busca de formas curiosas e relevantes de cultura. Também leciona literatura, gramática e técnicas de redação como profissão.

5 comentários

  1. Muito loko esse papo em plena pós modernidade, na qual tudo é passageiro, individualista e impessoal. Casais escolhem estar juntos porque está. Bom, é legal e ao mesmo tempo conquistar esse tipo de relacionamento é almejado por todos. Já que todos querem um parceiro que dure para sempre, porém o que dura da trabalho, quase ninguém tem interesse no que necessita dedicação para florir….É um paradoxo : quero mas tenho preguiça ….. enfim Rex tenho dedicado muita atenção nos últimos anos em um parceiro apenas e tem sido genial descobrindo em cada situação do dia a dia.
    Bjos e valeu pelo texto

  2. Parabéns, lindo artigo, vc conseguiu sintetizar em palavras o que eu sinto, muito obrigada por isso.

    • Obrigado, Rafaela. Também fiquei feliz em ter conseguido expressar essa ideia, particularmente por ter um relacionamento estável e sofrer a pressão social ainda presente, do machismo, de que perco tempo, há mais para ser vivido, que sou trouxa e outras ideias do gênero (que nem sempre são verbalizadas, às vezes aparecem por meio de uma expressão irônica de rosto ou um riso sarcástico). Que bom que você também gostou!

  3. Parabéns pelo incrível artigo!

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