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quarta-feira , 28 junho 2017
Minha mãe, palavrões, e xadrez com xadrez
Banksy

Minha mãe, palavrões, e xadrez com xadrez

article-2155524-13766042000005DC-161_468x331Puta que pariu, falei um palavrão- pensei, logo após falar um palavrão em uma situação que eu não deveria falar um palavrão. Mas isso é culpa da minha mãe. O palavrão nada mais é do que o impulso de um sentimento personificado em palavra, um pequeno verso cheio de sentidos que consegue desafogar e externar toda mágoa ou alegria do mundo interno pro mundo aparente. Porra Lucas, dizia minha mãe, já falei que o almoço vai demorar. Eu não fazia ideia do que era porra, por isso pensava que porra estava sempre na boca da minha mãe. Hoje sei o que é porra, e sei também que a ambiguidade da frase anterior é nojenta pra caralho. Mas o fato é que, entre caralhos e porras, cresci ouvindo palavrões da voz mais sincera que já ouvi- a voz maternal.

b7a4ddd55314b761df6ab47cd6480706É porque sou portuguesa, justificava-se desconcertada ao notar que, em uma frase, havia dito mais palavrões do que substantivos. Nas brigas e discussões causadas pelo meu rebelde crescimento adolescente, criei intimidade com o vai-tomar-no-cu. Minha mãe gostava desse. Na dúvida, era vai-tomar-no-cu. E dava certo. Acabava com qualquer discussão e eu, mesmo jovem rebelde, ainda tinha resquícios educativos que sempre me impediram de responder à altura- apenas no meu pensamento. Vai-tomar-no-cu você, pensava o luks-rebelde, mas logo batia o inevitável arrependimento. Credo, luks-rebelde, você mandou a própria mãe tomar no cu, pensava comigo mesmo. Ela que começou, argumentava o luks-criança, sempre do lado do luks-rebelde- esses dois nunca se desgrudaram. Fui percebendo então que eu não tinha a mesma destreza de minha mãe com os palavrões. Ela sempre usou de modo impecável, no timing certo, com uma precisão invejável. Caralho Lucas, já falei mil vezes que a porra do prato é no caralho da pia, anunciava a voz mais sincera que já ouvi.

Nos conflitos em Baltimore (EUA), mãe dá lição pública no filho.

Nos conflitos em Baltimore (EUA), mãe dá lição pública no filho.

Querendo ou não, me apeguei a essas palavras tão discriminadas e, como minha mãe, passei a usá-las tão naturalmente quanto uso advérbios. Claro que sem tamanha ligeireza e competência, longe de mim! À vezes ponho um caralho no lugar do porra e a frase fica nitidamente mal construída. Penso: o que minha mãe falaria? Foda-se. Digo, minha mãe falaria “foda-se”, porque foda-se é o palavrão coringa, o pretinho básico do mundo hostil, que vai com tudo. Diferente do puta-merda que, usado com puta-que-pariu, é como vestir jeans com jeans, ou xadrez com xadrez; não combina. Lucas, leva a caralha do guarda-chuva dessa vez; Lucas, põe a merda do casaco que tá frio; Lucas, tira um pouco dessa bosta de futebol; Lucas, puta merda, já disse que xadrez com xadrez não pode; Lucas, foda-se. Foda-se o Lucas porque esse texto é sobre a minha mãe. Pois, como vocês percebem, ela fala muito palavrão… e é uma fonte de inspiração que eu amo. Pra caralho.

Sobre Luks Ramos

Autor do livro "Frentes e Versos" (http://www.literabooks.com.br/frenteseversos), pela LiteraBooks, Lucas tem uma imaginação com síndrome do pânico. Não há espaço interno que a satisfaça. Então conversaram e lhe foi oferecido o papel. Depois foram convidados a publicar suas belas insanidades por aqui. Aceitaram.

Um comentário

  1. Lucas, eu sabia que tínhamos algo em comum: mães inspiradas pra caralho!
    Parabéns, muito divertido teu texto!

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