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quarta-feira , 22 março 2017
Memória, miopia e déjà vu
Ilustração de Elena Pancorbo (https://www.facebook.com/elenapancorboilustracion)

Memória, miopia e déjà vu

Ilustração de Henrique de França (http://www.henriquedefranca.com/)

Ilustração de Henrique de França (http://www.henriquedefranca.com/)

Minha memória não é das melhores. Quando preciso lembrar da minha infância, minha mente cria factóides imaginários que conectam as lembranças reais e produzem uma história coerente. É um mecanismo de defesa; as coisas precisam fazer sentido. Eu era pequeno quando minha cama era uma sala de reuniões. Meu pai, sentado ao lado de minha mãe, na ponta do colchão forrado pelo lençol do Mickey, deu-me a notícia triste: Lucas, você vai ter que usar óculos. Foi quase imediato o gosto salgado em meu paladar; as lágrimas já haviam caído. Meu pai tentou argumentar. “Filho, até o Romário usa óculos”. O problema é que o Romário já era velho, obsoleto, e o meu ídolo era o Robinho. O Robinho não usava óculos. Meu pai errou na referência, minha mãe não entendia nada de futebol, e eu fazia apenas encharcar minha sala de reuniões. O Mickey não ficava assim molhado desde a época que eu fazia xixi na cama. Foi o meu primeiro contato com a miopia.

De lá pra cá, carreguei comigo alguns pares de óculos. Pobre objeto frágil no rosto de uma pessoa descuidada e distraída. Percebi que minha bunda usava mais meus óculos do que meu olhos. A verdade é que poucas vezes os mantive em meu rosto. O trauma estético que me causara fazia com que eu os tratasse com indiferença. “Lucas, cadê o óculos? Tá forçando a vista!”, era o mantra repetido por aqueles que me noticiaram a triste penitência. Geralmente eu não sabia responder. Os óculos sempre estão em um lugar difícil de se encontrar, ainda mais pra quem está sem óculos. Mas se eu não gostava do óculos titular, tampouco gostava do reserva. “Então pegue o reserva! Assim você vai forçar a vista”. De fato, minha mãe não entendia nada de futebol. Todos sabemos que o reserva não é reserva por acaso: aquela merda só ia me fazer mal. Toda vez que eu voltava ao oculista, meu grau aumentava. O letreiro do ônibus errado tornava-se certo e a letra miúda da professora era repetida em um garrancho simbólico copiado em meu caderno apenas por desencargo de consciência. Os anos trouxeram-me a maturidade, e o leve aumento da miopia. Hoje, em minha cama, não há mais lençol do Mickey, e o azul claro básico que colore o forro do colchão não tem motivos pra ser umedecido. Hoje, o Romário- que usa óculos- é um dos melhores Senadores do Brasil, e o Robinho- que está velho- não foi sequer convocado pra Seleção. Meu pai grita que o juiz precisa usar óculos; minha mãe pergunta se foi gol ou estava impedido. Déjà vu; as coisas precisam fazer sentido. E eu sigo forçando a vista.

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Sobre Luks Ramos

Autor do livro "Frentes e Versos" (http://www.literabooks.com.br/frenteseversos), pela LiteraBooks, Lucas tem uma imaginação com síndrome do pânico. Não há espaço interno que a satisfaça. Então conversaram e lhe foi oferecido o papel. Depois foram convidados a publicar suas belas insanidades por aqui. Aceitaram.

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