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quinta-feira , 24 maio 2018
Livros para transcender (ou gozar, metaforicamente)

Livros para transcender (ou gozar, metaforicamente)

Esta postagem vem argumentar em favor da tese de que há sensações prazerosas tão intensas quanto o sexo (um bom sexo) e que uma das fontes mais poderosas desse tipo raro de prazer é a arte. Já aviso logo de cara, nenhum dos livros aqui indicados é erótico.

O auge de prazer que podemos experimentar é chamado de êxtase, termo normalmente relacionado com sexo, mas há outros meios nada sensuais que possibilitam a produção desse tipo de sensação. Algumas experiências desenvolvem, aos poucos um estado interno cujo clímax é sensação de ter tido uma grande revelação, como se tivéssemos visto Deus, a essa sensação dá-se o nome de Epifania. O indivíduo que vivencia esse estado de espírito fica como que em choque, catártico.

A entrega religiosa à um rito místico pode conduzir a este estado, assim como um processo terapêutico (em que chamamos o fenômeno de insight), mas o meio mais comum de ter uma epifania (além do orgasmo) é através da arte. Em todos os casos, a catarse é produzida por uma ascensão gradativa, como se estivesse sendo construída aos poucos no nosso interior, para desencadear repentinamente um processo de inundação sensorial que nos dá a sensação de termos todos os sentidos estimulados ao limite.

what-kind-of-sorcery-is-thisAlguns escritores se tornaram mestres na arte de produzir esses orgasmos intelectuais em suas obras, caso clássico de Guimarães Rosa e Clarice Lispector. A lista a seguir relaciona algumas obras que proporcionam essa maravilhosa sensação, mas antes, um aviso: a epifania é fruto de um processo que pressupõe a entrega do sujeito, então, não há segredo, ao escolher um dos livros abaixo para ler (9 só para não ser 10, que é muito clichê), entregue-se à leitura com dedicação, a concentração é parte fundamental para o funcionamento da magia.

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1. Alessandro Baricco – Esta história

Alessandro Baricco é um mago, sua literatura é milagrosa. Desde o pequenino “Seda” ele vem surpreendendo a cada romance com uma impressionante capacidade de produzir epifanias em quem o lê. “City” é divertidíssimo, “Oceano Mar” é fantástico, “Mundos de vidro” tem algumas das cenas mais lindas que já li, mas “Esta história” é sua obra mais bem acabada, daquelas com começo, meio e fim surpreendentes. Pelo menos para mim, foi uma avalanche de sensações reveladoras amarradas por um fio condutor de várias histórias espantosas (corrida de carros, um episódio de guerra inusitado, nos estratagemas malignos da adolescência, no amor dos protagonistas e suas buscas e no fim mágico). Último Parri, nunca mais esqueci o nome desse personagem apaixonante. De brinde, após a leitura, você descobre quantas das loucuras lidas foram fatos históricos.

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2. Guimarães Rosa – Primeiras Estórias

Não conheço escritor mais capaz de produzir efeitos milagrosos em um leitor. Neste livro de contos, toda história espanta, encanta, transcende. Guimarães consegue produzir epifania até em um conto sobre moleques de escola que têm que organizar uma peça de fim de ano (Pirlimpsiquice). Os contos, embora ambientados e travestidos do regionalismo sertanejo, são universais e atemporais. Há ali uma investigação profunda sobre a existência humana, o místico, o transcendente. Costumo contar alguns desses contos entre amigos e já vi alguns (mais de uma vez) chorarem de emoção pela epifania experimentada (só pelo enredo, sem contar com a maravilha da inventividade linguística do escritor). Mas é preciso precaver o desavisado. Ler Guimarães Rosa não é tarefa para qualquer um, requer concentração e entrega para decodificar seu idioma próprio.

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3. Clarice Lispector – Perto do Coração Selvagem

Famosa pelas frases que não disse postadas no facebook, além de ter sido estigmatizada como escritora para mulheres, Clarice Lispector tem como característica particular a “revelação” que seus personagens (por mais mundanos que sejam) vivenciam, esta é a matéria prima sobre a qual ela trabalha. Mergulhado nas tramas psicológicas que ela desenvolve, o leitor desvenda junto com os personagens seus milagres existenciais e neles se espelha, descobrindo o seu próprio. Praticamente qualquer obra de Clarice tem essa característica, mas “Perto do Coração Selvagem” se vale tanto do recurso do fluxo de consciência (técnica que expressa o universo caótico da mente do personagem na velocidade em que os pensamentos lhe ocorrem) que fica impossível a quem lê não sentir estrelas brilhando ao seu redor em várias passagens do livro.

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4. Raduan Nassar – Um copo de cólera

O ex-escritor Raduan Nassar escreveu apenas dois romances e um conjunto de contos que deu outro livro. Aposentando-se da literatura (o que já é bem esquisito) desde 1984, tem uma obra gigantesca de três livros monumentais. “Um copo de cólera” poderia se chamar um soco no estômago (não, não podia!) de tão vigorosa que é sua verborragia. Os fatos narrados são poucos, um relacionamento em crise, sexo, traição e mágoa, mas a construção dos diálogos é tão intensa que o leitor é arrebatado, enche-se da paixão dos personagens, luta consigo mesmo, visita seus demônios e tem garantida sua epifania. Não vale a pena resenhar essa obra, predominantemente psicológica, corre-se o risco de trivializar um dos mais belos retratos de uma briga apaixonada. A leitura não é fácil, mas já foi dito que a concentração e a capacidade de imersão na leitura são pressupostos para a “revelação”.

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5. Gabriel Garcia Márquez – Cem anos de solidão

Compre um exemplar descartável, pois certamente você terá vontade de atirá-lo pela janela ao acabar de ler. Eu não tinha janela, mas arremessei contra a parede, tamanho êxtase ao ler a última linha desse clássico da literatura realista-mágica. O colombiano Nobel de literatura narra a saga do clã dos Buendía, cheia de aventuras místicas, folclóricas, guerras, casamentos, milagres. Não há espaço aqui para citar as maravilhas sobrenaturais que acontecem nesta que é considerada por muitos a maior obra de literatura latina de todos os tempos. Não há livro melhor que este (alguns são tão bons quanto) e a leitura é bem simples, acessível. Garcia Márquez ainda escreveu obras incríveis, como “O amor nos tempos do Cólera”, “O outono do Patriarca”, “Relato de um náufrago”, mas não chegou perto de sua obra-prima (também, quase nenhuma outra obra no mundo chegou).

livro-o-ultimo-leitor-david-toscana-literatura-estrangeira_MLB-F-3649926025_0120136. David Toscana – O último leitor

Toscana é herdeiro da linhagem de Garcia Márquez e seu realismo-mágico, embora sua ambientação seja o México. Além desse livro indicado, também li “O exército iluminado”, outra obra surpreendente. “O último leitor” prende a atenção já no primeiro capítulo, em que Remigio encontra o cadáver de uma menina no poço de seu quintal. O tio de Remigio, Lúcio, é o bibliotecário do local (e único leitor dos livros da biblioteca pública em que trabalha) e passa a encontrar semelhanças estranhas entre a morte da menina (entre outros fatos) com os livros que lê. A história então segue um rumo cada vez mais imprevisível, excitando a imaginação do leitor até um clímax epifânico.

O Aleph

7. Jorge Luís Borges – O Aleph

O escritor argentino é mestre na arte de atingir o infinito, o impossível, o indescritível. Conheço gente que diz que se toda a literatura da história humana fosse queimada e sobrasse apenas a obra de Borges o mundo seria totalmente reconstruído. Seus contos podem ter apenas 3 páginas, mas são eternos, incomensuráveis. Em “O aleph” há preciosidades como o conto que dá nome ao livro, sobre um objeto que permite a observação do todo através dele, isto é, tudo que existe, todos os lugares e tempos, todas as pessoas e sentimentos, fatos, fenômenos e conhecimentos concretos e imaginados. Em “A escrita de Deus” você entende o que acontece quando alguém se torna Deus. Todos os contos trabalham com temas transcendentais, levando o leitor a expandir seu horizonte de percepção e concepção de realidade. Recomendo um conto por vez, o resto do dia digerindo sua profundidade, como um mantra.

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8. Hermman Hesse – Sidarta

Não dá para falar de epifania e não citar Hermman Hesse. Fiquei tentado a por “O jogo das contas de vidro” aqui, mas há uma decepção tão complexa nessa obra-prima que preferi Sidarta que, ao contrário, consagra todas as expectativas dos leitores. Inspirado na história (transmitida pela oralidade) de Bunda, Hesse constrói o percurso de elevação espiritual gradual até a plenitude. Cada etapa em que Sidarta Gautama se envolve, cada culto em que vira discípulo, o leitor mergulha com ele no processo de aprendizado que o levará à transcendência plena. Diferente dos outros livros comentados, a epifania de Sidarta é mais calma, serena e permanente, como quem acabou de fazer o caminho de Santiago de Compostela. A escrita de Hesse é poética e precisa, pode-se retirar centenas de aforismas ou construções frasais para tatura no próprio corpo ou postar no facebook e pagar de intelectual evoluído. Leitura obrigatória para quem quer algo mais da vida.

TOCAIA-GRANDE

9. Jorge Amado – Tocaia Grande (a face obscura)

Pode surpreender um livro de Jorge Amado aqui, para quem tem o preconceito de que ele só escreve sobre sacanagem, macumba e greve, mas quem leu pelo menos “Capitães da areia” sabe bem o que esse baiano consegue fazer com o leitor (só lembrar da morte de Sem Pernas). “Tocaia Grande” conta a saga de um vilarejo criado pelo Capitão Natário (competente jagunço que almeja se tornar coronel) na região do cacau no sul da Bahia. A cidade é constituída como ponto de passagem de tropeiros, a partir do estabelecimento de algumas putas, um turco, um encantador de passarinhos, entre outras figuras inóspitas. O vilarejo cresce como uma criança, despertando a ira dos inimigos de Natário. Como todo épico, seu fim é grandioso e epifânico. Uma grande novela que virou uma péssima novela na falecida Rede Manchete.

Tem livros que o trabalho do escritor é tão cuidadoso que levam o leitor a uma sensação única, como que uma revelação espiritual, que chamamos epifania. Alguns autores são especialistas em causar esse espanto. Aqui vai uma relação dos mais impressionantes casos desse tipo de literatura. Fica a dica.

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Sobre Adriano Dias

Adriano Dias é um dos idealizadores do projeto, articulista e mergulhador no "mar de signos" em busca de formas curiosas e relevantes de cultura. Também leciona literatura, gramática e técnicas de redação como profissão.

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