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quinta-feira , 22 fevereiro 2018
Livros para quem busca se encontrar (8 dicas)

Livros para quem busca se encontrar (8 dicas)

Dentre as muitas motivações que levam alguém a ler um livro, uma das mais nobres e poderosas é a ânsia de se conhecer um pouco mais, desvendar o universo profundo que nos constitui, que nos torna quem acreditamos que somos. Estou tentado a dizer que só os raros são movidos por essa paixão, mas é um clichê bem questionável, pois já convenci tanta gente a ler livros pelo argumento dessa descoberta que hoje me parece mais coerente crer que essa jornada é uma motivação comum a quase todos (talvez dependa mais de estímulo que de princípio existencial).

Falo aqui do processo de formação do “eu”, como o concebemos. Quem somos, quem cremos que somos, como queremos ser vistos, como somos vistos, o quanto de nós é original o quanto formado pela relação com o mundo. Tem gente que pira nessa viagem.

Há uma gama de autores consolidados na literatura de imersão, criadores de obras que nos fazem mergulhar nos meandros das relações que o ego estabelece com o mundo, desvendando o processo de formação da identidade. É sempre difícil criar uma lista. Não quis botar mais de um livro do mesmo autor, para abranger uma maior variedade de estilos (o que obriga a deixar meu preferido “Martin Éden”, de Jack London, de lado, ou “Sidarta”, de Hermman Hesse). A lista abaixo poderia ser enorme, mas ficarei com 8 dicas para começar ou aprofundar esse percurso:

Um, Nenhum e Cem Mil1. Luigi Pirandello – Um, nenhum e cem mil

Começo a lista com o livro mais fácil, uma comédia aparentemente inofensiva desse nobel de literatura, o italiano Luigi Pirandello. Trata-se da história do pobre Moscarda, herdeiro de um banco, meio paspalhão, que descobre, pouco a pouco, que as outras pessoas têm dele uma imagem que ele mesmo desconhece. A princípio surpreso e com o tempo, obcecado, espalha espelhos pela casa tentando flagrar-se acidentalmente, buscando a visão de um estranho sobre si mesmo. Há uma cena emblemática sobre dois amigos que ele recebe em sua casa, estes não se conhecem e Moscarda sente aquela sensação desagradável de que seus amigos ficarão incomodados por não se conhecerem. Ao ir à cozinha, ouvindo o diálogo tranquilo entre os dois, percebe que o incômodo é só dele, que tem que representar dois Moscardas diferentes ao mesmo tempo. Brilhante ilustração da busca identitária.

 

Servidão Humana - Somerset Maugham2. Somerset Maugham – O fio da navalha

Esse autor tem um romance mais famoso, chamado “Servidão humana” igualmente reflexivo, mas Larry Darrel é um personagem mais apaixonante. Trata-se de um americano ex-combatente da 1ª Grande Guerra que, ao voltara para casa, para espanto da sociedade local, abandona todo o conforto de sua vida burguesa (incluindo sua noiva) para uma busca por um sentido mais profundo para sua existência. Perambula por Paris, Índia e Nepal, retornando, anos depois, totalmente transformado. O mais curioso é que a história é narrada do ponto de vista do espanto dos outros personagens em relação às mudanças de comportamento de Larry.

 


o-estrangeiro3. Albert Camus – O estrangeiro

Agora estamos entrando num terreno mais perigoso. Esse pequeno romance contém um texto perturbador. Não é comum alguém ler esse livro e permanecer o mesmo. A narrativa é seca, sem muitos adjetivos e a emotividade dos comportamentos do personagem principal fica por conta da inferência do leitor, pois ele narra os fatos com tanta objetividade que passa uma impressão de frieza o tempo todo. Mersault enterra a mãe, marca seu casamento, assassina um árabe e enfrenta o seu próprio julgamento com o mesma simplicidade, coerente o tempo todo com as emoções que realmente sente. E paga o preço por não vestir as máscaras que a sociedade obriga a todos a usarem. Mersault é a corporificação de como seria um estrangeiro à sociedade que nos cerca e constitui.

 

Capa_O lobo da estepe4. Hermman Hesse – O Lobo da Estepe

Já publiquei um artigo sobre esse clássico hippie, constituído de duas partes distintas. A primeira é uma visão em terceira pessoa do personagem principal, Harry Haller, o Lobo da Estepe, da perspectiva do jovem a quem ele entrega como presente o texto que será a segunda parte do livro. Num segundo momento, o leitor será conduzido, pela narrativa em primeira pessoa do próprio Lobo, à um universo experimental, sensitivo, simbólico, psicológico e meio alucinógeno de alguém na busca mais profunda de si mesmo e do sentido da vida. A jornada faz o leitor refletir suas próprias convicções. Hesse é mestre em criar conflitos entre antíteses fundamentais e em consagrá-las em uma comunhão mística. Dá para tatuar algumas frases, depois de ler.

 

621442895. Jack London – O apelo da Selva

Jack London é um dos escritores mais machos da literatura. Ler seus romances é ir de encontro ao que há de mais ancestral, animalesco e instintivo na constituição da alma humana. O Chamado Selvagem (ou Apelo da Selva, conforme a tradução) conta a história de um cachorro bonachão, Buck, sequestrado para se tornar cão de matilha de trenós no processo de colonização do Alasca. Não há pieguice em London, seu cachorro tem as limitações intelectuais de um bicho, mas seu processo de adaptação darwinista à selvageria é um paralelo óbvio da condição humana. A história é poderosa, tem superação, sangue, aventura, luta e amor fraterno dos mais puros. A linha reflexiva gira em torno da máxima vivida por Buck “no que diz respeito à sobrevivência, a educação é uma fraqueza.” Profundamente transformador, um livro que, ao terminar, dá vontade de se meter em uma selva em busca de sua essência primitiva.

 

o-apanhador-no-campo-de-centeio6. J.D. Salinger – O apanhador no campo de centeio

Há uma teoria da conspiração de que esse romance dispara um gatilho na cabeça de algumas pessoas pré-programadas para matar. O assassino de John Lennon lia esse livro quando foi preso e o de J.F. Kennedy também menciona o romance como “inspirador”. Mas, no duro, a narrativa em primeira pessoa de Holden Caulfield, um jovem de 17 anos deprimido, revoltado contra a hipocrisia da sociedade, embora não consiga manifestar um comportamento menos hipócrita. Mentiroso compulsivo, ele perambula por um fim de semana após ter sido expulso (pela quinta vez) de sua escola. Não há com não se identificar com o mundo interno perturbado e franco desse personagem, espelho revelador do processo de amadurecimento pelo qual todos nós passamos.

grandes_sertoes_capa7. João Guimarães Rosa – Grande Sertão: veredas

Não existe obra melhor que esse na história da humanidade. Talvez algumas tão boas quanto, mas esse romance pertence ao reino dos livros que jogamos pela janela após lermos, com a sensação de que nada mais precisa ser dito. Dizer do enredo já conhecido por todos é dispensável. Não está na luta pela vingança, nem no romance proibido Riobaldo x Diadorim o milagre desse clássico (embora contribuam muito para a epifania). Na voz do narrador-personagem Riobaldo, João Guimarães Rosa reflete o sentido da vida, a existência ou não de forças sobrenaturais, sobre os instintos e paixões que movem os homens e a história da humanidade. Há várias histórias dentro da trama principal e todas encerram uma profunda reflexão. É um texto denso, complexo, dos mais difíceis de se ler. É como instalar um software de linguagem novo no cérebro, demora um pouco (ou muito) para rodar direito, vemos um aglomerado de termos de nosso idioma (ou quase) que se recusam a fazer sentido. Para os persistentes, o presente é a visão de Deus! (ou do Diabo).

 

27698_7318. Roberto Freire: O Coiote

Costumo deixar esse romance na manga, guardo para agarrar aqueles que dizem não gostar muito de ler, ou que desconfiam que uma leitura de livro possa trazer grandes modificações na vida de alguém. “O Coiote” é um marco em minha história de leitor e venho vendo ele adquirir o mesmo status para os poucos a quem indiquei a leitura. Romance neo-hippie, com adolescentes fumando maconha,  transando e conquistando a amizade de um senhor (Rudolf) em crise existencial, que terá sua vida transformada por um jovem com poderes mutantes incomuns (Stan Lee não pensaria em algo assim), ele é irresistivelmente cativante, não há quem o conheça e por ele não se apaixone. Aos poucos, junto com a imersão nas questões existenciais que Rudolf passa a refletir, vamos também sendo arrebatados pela magia do Coiote. Será inevitável recordar de algumas pessoas especiais que conheçamos, ou mesmo almejar nós mesmos nos tornarmos como o Coiote. Livro mágico e perturbador. Ninguém permanece 0 mesmo depois dessa leitura.

Livros de auto-ajuda só ajudam seus escritores. Os melhores livros para quem quer mergulhar em si mesmo realizam esse processo de forma mais sutil, indireta, convidam o leitor a caminhar ao lado de protagonista em sua jornada para dentro. Aqui vai uma relação de livros para quem quer percorrer esse caminho.

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Sobre Adriano Dias

Adriano Dias é um dos idealizadores do projeto, articulista e mergulhador no "mar de signos" em busca de formas curiosas e relevantes de cultura. Também leciona literatura, gramática e técnicas de redação como profissão.

12 comentários

  1. Obrigada pelas dicas. Já li alguns e estou agora no Pirandello. Outra dica seria A Imortalidade, Milan Kundera. Bjs

  2. Também nunca tive costume de ler, mas procurando na internet dicas de como posso encontrar meu “eu” achei essa lista.
    Fiquei muito interessada no Coiote, mas ainda n consegui baixar em pdf. alguma dica?

  3. Nunca li nenhum desses livros… tamanha a minha distância da leitura desde que terminei o colegial. Uma pena eu ter ficado tanto tempo sem ler absolutamente nada, porém esse Post chamou me a atenção e agradeço pelas sugestões, que eles possam me ajudar a retomar o gosto pela leitura. Abs.

    • Alan, se aceita uma dica diretamente para ti, da lista, escolha “O Coiote”. É o que com mais certeza te encantará desde o começo, impossível parar de ler. Outra dica: assista ao filme “Na Natureza Selvagem” – filmaço sobre um rapaz americano que se joga numa aventura em busca de si mesmo no Alasca. Depois de enlouquecer com o filme, saiba que o jovem tinha essa obsessão por conta do livro “O Apelo da Selva”, da lista aqui postada.

  4. Rafael Padron Almeida

    “O Chamado Selvagem” é, de longe, meu livro favorito. Ja li várias vezes e cada vez que leio vejo a história de um jeito diferente. Coiote é chocante, perturbador! Te proporciona reflexões sobre coisas que você tem como “fixas” na sua cabeça. Sem dúvidas consegue modificar bastante quem se permite a leitura. Parabéns pelo post, Adriano! Esse tipo de “dica” a gente não encontra tããão fácil por aí!

    • Valeu, Padron. Embora esse tipo de post também não se dirija a qualquer um, quem está na Busca vai encontrar algumas pérolas. Tu vai gostar do Somerset Maugham, é a tua cara! Abraço!

  5. Excelente post. O Ocioso está precisando de mais sites divulgando e indicando livros, ao invés de ficar falando sobre Anita, Sabrina Sato, Ex BBB´s, Panicats e filhas de boleiros…

    • Até concordo, Wilson, mas é só ver a diferença de clicagem no presente artigo em relação aos do topo da lista, provavelmente ocupado por “celebridades”, mulheres gostosas e bizarrices. Não que eu não goste de mulheres gostosas e bizarrices, mas a distância de interesse é expressiva! Valeu pelo elogio!

  6. O Coiote é apaixonante, é de suspirar lendo.

    • Simplesmente envolvente. Quem ainda não leu, está perdendo uma ótima leitura.
      Espero que tenha gostado do nosso site e esteja sempre por aqui.
      Valeu!

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