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sexta-feira , 24 novembro 2017
Livros de macho: Crônicas de Artur

Livros de macho: Crônicas de Artur

Clube da LutaPrimeiro definir o que são coisas de macho: briga, bebida, disputas de poder, mulheres, brigas, mortes, mulheres, código de honra, destruição de patrimônio, brigas por mulheres, saques, depredações, já disse briga? Historicamente o livro e a literatura têm sido estigmatizados como objetos do universo feminino, seja de mulheres ou de homens não tão másculos assim (não necessariamente gays, mas, pelo julgamento dos machos: afeminados).

Ao contrário do que se pensa, curiosamente, os assuntos de macho são tema recorrente da literatura, e da mais alta qualidade de literatura, diga-se de passagem. Todo clássico grego ou latino tem sangue, ninfas (sexo), vinho e luta pelo poder. A história dos livros está construída sobre escombros de cadáveres destroçados, mulheres usadas e abusadas, bastardos, bebedeiras e tripas.

Que o diga Jack London, com seu A Praga Escarlate, ou Steinbeck, com seu Homens e Ratos, livros já comentados aqui no site.

Dentre os escritores contemporâneos, Bernard Cornwell destaca-se por produzir uma vasta obra para machos (não que as mulheres não possam ler, mas provavelmente não verão a mesma graça). Pesquisador de batalhas antigas, admirador de história de conquistas heroicas, Cornwell vem consolidando um conjunto literário esplêndido (adjetivo nada macho) tendo como matéria-prima, principalmente, o glorioso e sangrento império britânico.

AS_CRÔNICAS DE ARTURNas suas “Crônicas de Artur”, em três volumes, o escritor reconstrói a saga do maior mito inglês por meio de um personagem periférico (mas não menos importante na trama), um braço direito do rei bastardo.

O primeiro livro, “O Rei do Inverno” já começa com o nascimento do herdeiro do Grande Rei Uther com a cristã Norwenna da forma mais brutal possível, como se pode ver nos trechos abaixo:

“E o Deus cristão fracassou. Os gritos de Norwenna diminuíram, mas os gemidos ficaram mais desesperados até que finalmente a mulher do bispo Bedwin veio do salão e se ajoelhou trêmula ao lado da cadeira do Grande Rei. O bebê, disse Ellin, não queria sair, e a mãe, pelo que ela temia, estava morrendo. Uther desconsiderou o último comentário. A mãe era nada, apenas a criança importava, e somente se fosse um menino. […] Nimue se agachou perto da porta e urinou na soleira para manter as fadas malignas longe do salão, depois pegou um pouco da urina com a mão em concha e levou até a cama de Norwenna, onde borrifou-a sobre a palha como mais uma precaução para que a alma da criança não fosse roubada na hora do nascimento.[…]O grito dado por Norwenna na hora do nascimento foi pior do que qualquer um que o precedera. Foi o urro de um animal atormentado, um lamento para fazer toda a noite soluçar. Nimue me disse mais tarde que Morgana tinha causado essa dor enfiando a mão no canal do nascimento e arrancando o bebê para este mundo com o uso de força bruta. A criança veio sangrenta de dentro da mãe atormentada, e Morgana gritou para a menina pegar a criança enquanto Nimue amarrava e cortava o cordão.”

Tapeçaria Rei ArthurEssa cena já espanta boa parte do público sensível feminino. Cornwell trata da disputa de poder, de alianças de sangue, estratégias de guerra, da sensação que se tem ao enfiar uma espada na barriga do inimigo e virá-la para ter certeza da morte do adversário. O livro cheira a suor e ferro, sangue e terra, tem som de espadas se chocando e de uma turba organizando uma parede de escudos, embora haja espaço para o romance.

Mais que retratar as paixões masculinas, Bernard Cornwell cria um poderoso compêndio sobre a administração de pessoas, sobre o Governo, de forma mais divertida e persuasiva que “A arte da guerra” ou “O Príncipe” (célebres obras sobre a estruturação e manutenção do poder).

Sua preocupação com a verossimilhança leva a produzir uma reprodução convincente da Idade Média na Bretanha, atento a detalhes de limitação tecnológica, limites culturais dos povos, uso do conhecimento como magia (com personagens como Merlin e Nimue) e, principalmente, sobre o surgimento, florescimento e gradativa predominância do cristianismo na grande ilha europeia.

A saga do misterioso Artur (cuja existência ainda não pode ser comprovada, menos ainda sua história como suposto rei) na unificação dos povos da Bretanha vem encantando o mundo há séculos. Curiosamente, durante a década de 80 surgiu uma versão inusitada dessa lenda poderosa, a partir do ponto de vista feminino. A série “As Brumas de Avalon”, da escritora estadunidense Marion Zimmer Bradley,  vendeu milhões de cópias, virou seriado na TV e filme, em 2001, estrelado por Anjelica Houston. Nessa versão, as estrelas são Guinevere, Morgana e Morgause, enquanto Merlin, Artur e seus cavaleiros são coadjuvantes com seu enredo já bem conhecido.

fightEnquanto “As Brumas de Avalon” se consagrou como uma das mais poderosas narrativas femininas do século XX (ao menos em termos de números de mercado e pela opinião quase unânime das leitoras mulheres), Bernard Cornwell, em 1995, começava a lançar sua trilogia, versão que retoma a virilidade da lenda. O que o autor economiza nos detalhes, sobra na narração de batalhas. Gradualmente o leitor vai sentindo o cheiro de metal suado, o calor da parede de escudos e a adrenalina de uma batalha campal na pele de um dos mais corajosos guerreiros de Artur.

Como os brutos também amam, em meio às batalhas pela manutenção do poder da Grande Bretanha, o macho será sorrateiramente levado a torcer pelo amor do protagonista (ou se indignar no episódio de Tristão e Isolda), a se sensibilizar com algumas mortes trágicas, a se irar com traições de ferver o sangue. Dará algumas risadas com a postura displicente, presunçosa e inteligente do mago Merlin, ridicularizando os cristãos. E ainda será obrigado a abrir concessão para Nimue, um dos personagens mais machos (embora mulher) da trama.

Em determinada passagem, quando um reino repleto de arte e filosofia é atacado por francos, o rei consulta um dos personagens principais da trama sobre o que fazer. Este ridiculariza não só o rei com seu feudo repleto de artistas quanto a validade da própria arte, sugerindo que ele atire seus bardos (poetas) sobre os inimigos que os estão destroçando, debochando da falta de militarismo do mecenas. Essa é a postura de Cornwell quando escreve seus livros de e para machos.

Você é macho e gosta de ler, veja também as matérias sobre livros desse estilo, na coluna Pequenos grandes livros:

Salinger – Ratos e Homens

Jack London – A Praga Escarlate

Sobre Juliana Dias

7 comentários

  1. Salinger autor de Ratos e Homens? Não seria Steinbeck?

  2. Eu sou mulher. E absolutamente AMO Bernard Cornwell e todos os livros dele!
    Por trás de todo ”suor e sangue” há uma extensa pesquisa histórica e recentes fatos descobertos em cada história. Ele é extremamente fiel, geralmente, às narrativas.
    E eu adoro as histórias porquê são muito mais realistas que qualquer romance água com açúcar. A vida não é um conto de fadas 😉
    Decididamente é meu escritor preferido.

    • Esse realismo, que, no caso das narrativas do Cornwell, se referem a sangue, morte, mutilação, sexo despudorado, palavrões, constitui uma característica literária que causa repulsa à maior parte das mulheres que leem as obras dele, assim como as do Jack London, Hemingway, Bukowski, etc. Mas conheço muitas mulheres mais machos (nenhuma conotação sexual) que eu, até, e costumam ser muito divertidas. Inclusive sou casado com uma 😉

  3. Puts! Eu sou vidrado nas histórias do Rei Arthur, mesmo elas sendo masculinas, sangrentas ou divertidas.
    Essa coleção já está na minha lista de compras.

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