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terça-feira , 22 maio 2018
Literatura: visão além do alcance.

Literatura: visão além do alcance.

Quando Lion colocava sua espada em frente aos olhos e dizia “Espada justiceira, dê-me a visão além do alcance!” (com a colocação pronominal correta), conseguia poderes tanto de enxergar à distância quanto além do próprio tempo, ou seja, adquiria o dom da vidência. É um dos desejos mais antigos do homem: enxergar além. O olho de Thundera não existe, mas temos outros meios de realizar esse fenômeno. Temos a ciência, que pratica a vidência por meio da pesquisa, temos a religião, que depende da fé, e temos a Arte, que parte da sensibilidade do artista.

Infelizmente só se pode comprovar que alguém realmente tem esse talento após acontecer o futuro o que foi pressentido pelo vidente no passado. Podemos dizer que alguns dos loucos do passado se converteram em sábios visionários com o passar do tempo. Esse aforismo poderia ser aplicado a grande artistas futurologistas como Júlio Verne, Isaac Asimov, Aldous Huxley, Ray Bradbury, Joseph Heller, George Orwell. Estes caras produziram clássicos da ficção futurista, da viagem ao futuro fictício e acertaram muito de suas previsões (erraram o mesmo tanto, ou mais).

Mas o presente artigo não é tão óbvio. Voltaire, Shakespeare, Camões, Heródoto, Baudelaire, Hermann Hesse, Kafka, Gregório de Matos, Lima Barreto, ou qualquer outro grande artista de seu tempo, independente do estilo ou temática em que construiu sua obra, também são videntes, profetas de seu próprio tempo. Toda grande obra literária fornece subsídios, concretos ou intuitivos, sobre o momento em que foi produzida, pois as grandes obras surgem como que emanadas de um discurso do tempo, imperceptível ao cidadão comum, mas invasora das almas sensíveis que os mestres possuem.

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Nesta perspectiva, estudar a história da literatura, ou as grandes obras e escritores que lideraram os movimentos literários de seu tempo (muitos destes delimitados somente décadas após sua superação), é semelhante a ler um tratado antropológico, uma arqueologia de visionários e suas vidências. Por detrás desse estudo submerge um conhecimento quase palpável de como se engendram as forças que constituem a sociedade humana em cada

Quando lemos um romance que parece muito com outros tantos já lidos é comum identificarmos o clichê, meio que intuitivamente, e tendemos a desvendar o final da trama. Costumamos considerar esse tipo de obra menor, sua previsibilidade irrita o leitor competente. Em geral, a civilização humana vem seguindo esse padrão de roteiro mal engendrado. As mentes mais atentas e sensíveis registram a percepção do clichê social de seu tempo nas obras que vêm a se tornar os futuros clássicos.

O leitor perspicaz já deve ter concluído que, caso seja possível detectar o gênio visionário da atualidade, o tal artista sensível e perceptivo, poderemos saber como será o futuro. Então, o futuro, quase exatamente como será daqui a algumas décadas, pelo menos na essência, já está sendo escrito agora. Dessa premissa derivam uma cadeia eufórica de deduções, tipo “podemos reescrever o futuro”, “mudar o destino da humanidade”, “ganhar milhões com o nicho de mercado mais promissor”, meu caro, a previsão desse futuro possível já conta com essas variantes e, provavelmente, já tem muita gente investindo no tal nicho promissor.

O milagre da revelação só funciona, infelizmente, aos loucos, pois é necessário crer com toda convicção na vidência para ter algum benefício dela. E os loucos de verdade buscam outro tipo de realização, seu plano é mais transcendente. Quanto mais próximo você (leitor cada vez mais desenvolto) chega da compreensão visionária que os gênios proporcionam, tanto mais distante se torna da ambição mundana que motiva as almas menores a adquirir privilégios materiais das previsões de futuro possíveis. É o paradoxo da sabedoria.

Aqui reside a armadilha desse artigo. Quem deseja adquirir a “visão além do alcance”, normalmente tem uma ambição mundana, curiosidade, vontade de se dar bem, enriquecer, tirar vantagens dos conhecimentos previdentes que se possa conseguir. O coitado nem se dará conta, mas sua busca o levará cada vez para mais longe desse objetivo, suas perguntas mudarão e mesmo as verdades que julgava serem sólidas serão questionadas, ou seja, ficará até mesmo sem o que já possuía.

Jorge_Luis_BorgesJorge Luís Borges tem um conto epifânico sobre esse fenômeno, em que o rei asteca, prisioneiro dos espanhóis conquistadores, busca recordar a palavra que seria o nome de Deus, a qual tornaria quem a fosse capaz de expressar no próprio Deus. Após um mergulho intelectual e onírico em si mesmo, o recluso recorda a palavra e percebe-se capaz de proferir esse nome, que o tornará Deus, a qualquer momento, podendo reverter toda a história de extermínio de seu povo e expulsar os espanhóis. Mas agora já não faz sentido proferi-la, pois ele é Deus e as preocupações mundanas já não mais lhe dizem respeito.

Não é um consolo. A força que leva um ambicioso a buscar desvendar as forças que compõem a sociedade humana é o princípio que o levará a construir sua história de vida, podendo vir a se tornar um grande empresário, um especulador de bolsa de valores, um “lobo da estepe”, um fracassado autodestrutivo, alcoólatra, um missionário voluntário, sabe-se lá. Essa força é a própria vida em sua fonte energética.

A literatura confere a visão além do alcance, tão além que ultrapassa também a visão que o próprio leitor projeta de si mesmo no possível futuro, surpreendendo-o com um “si próprio” que não estava no programa. É a grande maravilha de extrair o melhor do que existir pode oferecer.

 

A literatura confere a visão além do alcance, tão além que ultrapassa também a visão que o próprio leitor projeta de si mesmo no possível futuro, surpreendendo-o com um “si próprio” que não estava no programa. É a grande maravilha de extrair o melhor do que existir pode oferecer.

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Sobre Adriano Dias

Adriano Dias é um dos idealizadores do projeto, articulista e mergulhador no "mar de signos" em busca de formas curiosas e relevantes de cultura. Também leciona literatura, gramática e técnicas de redação como profissão.

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