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quarta-feira , 29 março 2017
Eu quero mesmo é o teu lixo, quero tua porcaria inteira

Eu quero mesmo é o teu lixo, quero tua porcaria inteira

Ilustração da sul-oreana ZIp Cy (http://semema.com/delicada-e-sensual-as-ilustracoes-de-zipcy/)

Ilustração da sul-oreana ZIp Cy (http://semema.com/delicada-e-sensual-as-ilustracoes-de-zipcy/)

Alguns poemas concentram tanto que deixam uma represa quase transbordante de “o que ainda falar” para trás. Ou talvez seja a delícia de voltar à experimentação tão viva da verdade ali contida, tão pura e concisa, lapidada. O fato é que o poema logo abaixo, que motivou o presente texto, encerra a expressão de um campo semântico que é importante explorar mais demoradamente, sobre a delícia que reside na verdadeira pessoa com a qual escolhemos nos relacionar, que só conosco há a permissão de sua plena manifestação, à despeito dos rituais de sedução ensaiados para conquistas, da perfeição imperativa do teatro social, teimando em tornar os milagres de nossas falhas em vexame.

Estar com alguém é escolher o encontro com a falha, muito embora tendamos a interpretar personagens no momento das primeiras seduções. Talvez esse seja um dos motivos pelos quais são tão raros os relacionamentos duradouros e justifique o quão viciante é a balada, a pegação e a paquera. O cenário primitivo da sedução é uma deliciosa trama de dramatizarmos nossos personagens ideais, conquistarmos não só uma presa sexual, mas a nossa autoestima, convencendo-nos de sermos bons de fato, mais do que nossas falhas cotidianas teimam em esfregar em nossas caras, no cotidiano. Encolhe-se a barriga, maquiagem bem feita, aprendida no youtube, balanços e trejeitos hollywoodianos, papo afiado, bom-humor à toda prova, cultura decorada, a magia do cinema incorporada, somos deliciosamente atores em cena, e dá certo que a encenação é bilateral, as delícias são mútuas.

Quem, em sã consciência, quer mais que isso? Como aceitar as banhas, olheiras, a raiva, a intolerância, a música que eu não gosto, a ironia, tanta chatice, o desleixo, o pé sujo, o bafo, cabelo desgrenhado, a verdade escancarada pós-gozo… e pior, como aceitar minha exposição continuada, a descoberta das minhas manchas, manias, ridicularidades incontroláveis por tanto tempo?

Ilustração da sul-oreana ZIp Cy (http://semema.com/delicada-e-sensual-as-ilustracoes-de-zipcy/)

Ilustração da sul-oreana ZIp Cy (http://semema.com/delicada-e-sensual-as-ilustracoes-de-zipcy/)

Quem escolhe o relacionamento tem que escolher a beleza dessa feiura toda e não tem a ver com aceitação resignada, mas com desejo. Pode ser fetiche, há quem pense se tratar de autocontrole, sublevação da mente, mas é escolha e deveria ser um processo natural de quem tanto naufraga na angústia de tentar se provar perfeito, no cansaço de tanto vestir máscaras, ter conhecido já o peso da fantasia e a sensação confortável e única de desvesti-la, de estar nu. Essa sensação é mais rara quando compartilhada, mas só vive o gozo de estar nu, amar alguém de verdade, sem fantasia, quem quer também, e tanto quanto, o seu lixo, os palavrões, as caras e bocas, as piadas ácidas, a TPM, os odores todos, os gostos todos, as antipatias devem ser amadas também.

Só quando as roupagens sociais construídas para seduzir forem deixadas no armário que começa a relação verdadeira e capaz de alcançar prazeres que os personagens são incapazes de sentir (talvez pela energia desperdiçada na concentrada interpretação).

Desejo teu lixo

Guarda tua beleza de luxo, irreal,
às exposições sociais e seus protocolos,
quando exibes escapes de teu colo
como parte dum sofisticado ritual,
entre risos contidos e cochichos.

Ilustração da sul-oreana ZIp Cy http://semema.com/delicada-e-sensual-as-ilustracoes-de-zipcy/

Ilustração da sul-oreana ZIp Cy http://semema.com/delicada-e-sensual-as-ilustracoes-de-zipcy/

Eu quero mesmo é o teu lixo,
quero tua porcaria inteira,
desleixo anterior à maquiagem,
com manchas e remelas que te fazem,
mais que elegante, verdadeira.

Guarda tua aura mítica para o dia do juízo,
convencer aos anjos tua candura,
perpetuar-te no paraíso.
Eu quero é tua boca suja,
descabelando palavrões e risos
com raiva pura, tua linda face escura.

Esconde-te perfeita dessa porta para fora,
que aqui só a tua falha mora,
espalhadas nossas máscaras para todo lado,
descalços, disformes, de moletom surrado,
nossos corpos largados a esmo:
aqui dentro só quero nós mesmos.

 

Ainda em tempo, para que não fique mal explicado, as fantasias são muito bem-vindas, sabidas como fantasias. Os primeiros personagens vestidos para seduzir, mais outros nunca usados por vergonha da ousadia e ainda tantos que podem ser inventados ao sabor da criatividade e das margens de liberdade que forem sendo conquistadas na relação,  serão, então, brincadeiras agora mais divertidas e excitantes por se saberem efêmeras.

As imagens incríveis desse post foram recolhidas do Tumblr da artista sul-coreana Zip Cy, cuja matéria a respeito foi publicada aqui: Delicada e sensual. As ilustrações de ZipCy

Sobre Adriano Dias

Adriano Dias é um dos idealizadores do projeto, articulista e mergulhador no "mar de signos" em busca de formas curiosas e relevantes de cultura. Também leciona literatura, gramática e técnicas de redação como profissão.

5 comentários

  1. muito bom!
    mas faltou a autoria do poema! é teu?

    • Oi, Clara. É meu sim. Em breve estarei realizando a divulgação de um livro com meus poemas, este incluso. O artigo foi feito depois do poema, como algo que faltava dizer sobre o assunto, ou apenas para continuar a extravasar o que penso sobre. Obrigado pelo elogio!

  2. Parabenizo a proposta do site e esta postagem. Retrato fiel de uma realidade tratada de forma clara, direta e doce.

  3. Elza Maria barreto

    Muito admiro a poesia q torna palavras inesperadas a uma realidade crua.

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