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quinta-feira , 25 maio 2017
Estragando a poesia: Sobre um paradoxo hiperbólico + Emi Haze
Arte de Emi Haze (http://www.emihaze.com/work)

Estragando a poesia: Sobre um paradoxo hiperbólico + Emi Haze

remembrance

Arte de Emi Haze (http://www.emihaze.com/work)

Para deixar claro a ideia óbvia do artigo, pretendo estragar a lindeza de um texto poético que eu mesmo escrevi explicando-o, embora considere que, no fundo, essa afirmação seja falsa, pois, como professor de língua portuguesa, estudar a construção de poemas os têm tornado mais elegantes e significativos à medida que são aprofundados. Tendo a faca e o queijo na mão, sem frescuras de falsa modéstia, proponho-me a esclarecer alguns elementos constitutivos de uma poesia que, particularmente, adorei ter feito e considero o resultado deliciosamente satisfatório. Ainda respondo ao anseio gordo que sinto ao ler um texto que acho acabado: “tinha tanto mais a dizer…”

Uma das funções mais deliciosas da poesia é possibilitar a brincadeira com o sentido que a língua costuma e pode criar em um texto. Ampliar o poder expressivo de um idioma é uma das tarefas mais intrínsecas e fundamentais da poesia, embora nem sempre seja o que pretende o poeta (ao menos diretamente). Essa transformação nas bordas da língua, por assim dizer, esse alargamento, ocorre justamente pelo jogo significativo que as palavras tramadas em uma poesia criam, obrigando o leitor a pensar algo que possivelmente nunca seria possível não fosse o tal texto.

O poema em questão é uma brincadeira semântica com um componente precioso aos poetas: o absurdo, cuja tradução em linguagem costuma ser realizada por meio de analogias, hipérboles e paradoxos. As comparações ou metáforas obrigam nosso cérebro a encontrar semelhanças entre os elementos aproximados (muitas vezes tão díspares que gera o absurdo), as hipérbole causam a amplificação exagerada do sentido comum de um sentimento, ação ou coisa e os paradoxos fazem a função de bugar completamente nosso sentido de lógica.

Como o tema é lírico, a expressão de um cuidado amoroso, o texto recorre a imagens comuns a esse tipo de delicadeza, a descrição da musa como um ser frágil e os exemplos dos cuidados que o eu-lírico tem com ela, como um trabalho, um objetivo de vida. Sendo um tema comum, já abordado em tantos outros textos ao longo da história, a graça reside na construção desse sentido de proteção, nas figuras utilizadas para expressar a tamanho da fragilidade e o proporcional exagero nos cuidados.

Vamos ao texto, que não tem título, mas se tivesse, seria: “Cuidado”

Costuma-se dizer porcelana ou cristal,
mas essas fragilidades não sangram nunca
e só o hálito da brisa em sua pele já sulca,
rasga a finíssima parede lateral.

E essa parte de sua epiderme sutil
é o único ponto de proteção corporal,
único local,
ao inverso do dragão de carapaça inviolável,
todo o resto completamente vulnerável.

Por isso cuido dela só com termos delicados:
compus o chão de sussurros sem erres,
para seus pés não arranharem nos lados;
sirvo-lhe mansas asas de querubins
(disfarçados de quindins)
em rações espaçadas a goles de névoa cigana
e nino seu sono em meu colo
feito dos mais fofos poemas de Quintana.

Ainda assim escapou-me em distração
um calor tal, mudo ruído ruim,
que até agora tento, em vão,
estancar sua ferida com infusões de todo amor que há em mim…

Arte de Emi Haze (http://www.emihaze.com/work)

Arte de Emi Haze (http://www.emihaze.com/work)

O poema começa com a descrição do “corpo” da musa, a partir de imagens de fragilidade e delicadeza, como a porcelana e o cristal (“costuma-se dizer” lembra que já se fizeram muitos textos caracterizando assim a amada), mas apenas como elementos de comparação, afirmando que o corpo em questão é exageradamente mais delicado, visto que “sangra”, “sulca” ao menor hálito de brisa. O paradoxo surge ao conceber esse ponto hiperbolicamente frágil como a parte segura do corpo, todo o resto vulnerável, a partir da imagem do dragão típico das histórias lendárias em cuja carapaça há apenas um ponto fraco pelo qual pode ser abatido. A inversão dessa imagem cria um corpo de violabilidade absurda, só concebível pela construção dessa analogia. Como se disséssemos: “O nada que te dei não foi nem a metade”. A brincadeira do absurdo reside em conceber uma negação, uma falta tão grande que não seja possível tirar mais nada, para então, afirmar ser essa parte que falta tudo o que se tem, afirmando o seu contrário e criando o paradoxo.

As estrofes seguintes dão conta de expor os cuidados que o eu-lírico alega dispor à amada tão hiperbolicamente frágil. O recurso utilizado é a metalinguagem, ou seja, usar a própria construção poética como referente. Quando o poeta escolhe palavras pelo som que têm, busca causar um impacto musical e emocional no leitor, o /r/ costuma ser usado propositalmente em casos que o autor quer agredir, arranhar, esbravejar, hostilizar em sua leitura, portanto, o “sussurro sem erres” é quase que salvar a palavra, pois sussurro é delicado, mas o fonema /r/ arranha. A sequência de versos a seguir respeita a proposta ao utilizar aliterações suaves de /s/, /m/ e as assonâncias do /a/ e /i/, fonemas delicados, fora que quindim é uma delícia! As metáforas oníricas levam, inevitavelmente o leitor ao ambiente de sonho em que é possível a existência desse ser, entre anjos, névoas, e o colo mais fofo do mundo: poemas de Quintana, que pode ser considerado uma hipérbole, pois os poemas de Mário Quintana são os mais fofos de nossa literatura.

Emi-Haze-diamons-in-natureO poema termina com o inevitável acidente que culmina na cena clímax da narrativa, escapa um calor, termo escolhido por ser uma sensação táctil sem que haja propriamente o toque, respeitando a coerência do cuidado a que o eu-lírico se propôs, assim como o “ruído ruim”, aliteração ruidosa que gera uma sinestesia ao ser associada ao calor como se fossem a mesma coisa, causando a “ferida” na musa, precisando de algum remédio, a chave de ouro do poema, pois o leitor é levado a especular “se o cara está cuidando de um ser tão frágil, se der errado o que acontece?” qual será o remédio. O texto não diz o resultado, nem se deu certo, ou se haveria remédio, mas a tentativa se dá com “infusões de todo amor que há em mim.”, ou seja, com o elemento imaterial mais concreto no imaginário humano: o amor.

Finalmente, para ilustrar o poema foi escolhida a ilustração do fotógrafo e artista plástico italiano Emi Haze, que tem uma série belíssima de ilustrações e fotografias de perfis femininos em que os corpos humanos são desconstruídos por meio da transparência, mesclando os perfis com nuvens, natureza, fumaças coloridas, compondo musas oníricas belíssimas, como a que foi pensada no poema, vá lá, “Cuidado”. Veja mais imagens do artista abaixo:

Sobre Adriano Dias

Adriano Dias é um dos idealizadores do projeto, articulista e mergulhador no "mar de signos" em busca de formas curiosas e relevantes de cultura. Também leciona literatura, gramática e técnicas de redação como profissão.

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