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quarta-feira , 13 dezembro 2017
Escola: deformando a identidade das pessoas há séculos

Escola: deformando a identidade das pessoas há séculos

Pense o que acontece com uma criança que, aos 7, 8, 10 anos de idade passa a ouvir do adulto no poder, no caso, o professor, que ela é burra, que não para quieta, que não presta atenção. É provável que tais frases sejam verdade, mas tornam-se verdades mais consolidadas cada vez que ela as ouve. Bem vindo ao processo de formação identitária: Eu sou burro, inquieto e desatento.

Já não é mais nenhuma tese de doutorado apontar o processo histórico em que a escola vem se consolidando, desde a era das Grandes Revoluções (Industrial e Francesa) até o aperfeiçoamento ao longo do século XIX e XX, de modo a tomar a forma que permanece até os dias de hoje: um prédio gradeado, com salas quadradas, alunos enfileirados, lousa à frente, uma mesinha para o professor que professa seu saber enchendo a tal lousa com matéria que os alunos copiam, fazem exercícios, são avaliados em provas e “passam de ano”, posto que são divididos por níveis, conforme a faixa etária.

Professor GirafalesA Escola é o local em que crianças são colocadas até a pré-maturidade para receber parte do conhecimento sistematizado pelo ser humano ao longo da história (pelo menos a parte que o poder público gestor da educação considera relevante), além de possibilitar o desenvolvimento de certas habilidades e competências que julgamos (quem mesmo?) fundamentais para o exercício da condição humana em sociedade.

Esses elementos todos podem (e devem ) ser questionados, mas mesmo que aceitemos esse modelo como suficiente, encontramos, por último, a figura do professor como agente primordial do exercício da Escola. É o cara lá da frente da classe que faz a instituição se realizar no dia a dia, a cada atividade proposta, gesto de afeto ou disciplina, em todas as falas proferidas, ouvidas como verdades inquestionáveis pelos alunos (pelo menos até a adolescência). Não se pode subestimar esse poder. Durante as aulas, o “mestre” determina como o mundo é, como a vida é, como se deve agir, e, o mais importante, nos diz “Quem somos!”

Vejo o quanto mudou minha relação com meus filhos a partir do momento em que passaram a frequentar a escola. Diariamente, foi se tornando comum a frase “a professora me explicou diferente”. Quando corrijo algum conhecimento dito por eles, a mesma coisa: “mas minha professora explicou assim”. O docente tem um lugar tão ou mais poderoso que os pais, em termos de autoridade, para proferir o que devemos acreditar. Isso tanto no que se refere a conhecimentos gerais (português, história, ciências), quanto em relação a como devemos nos portar no mundo: “minha professora disse que fumar mata”, “a professora disse para não desperdiçar água”, “a professora disse que deus está olhando a gente”.

Pink Floyd - Another Brick in the WallDa mesma forma, mas muito mais insidioso, o discurso de diagnóstico de comportamento, ou de caráter (o que é pior), tem poder de influência em cada pequeno ser em classe. Dizer “você é muito bagunceiro” cria a autoimagem de bagunceiro para o interlocutor que, quanto mais novo for, mais suscetível à esse tipo de determinação será. A criança ouve que é desatenta, preguiçosa, inútil, burra, desequilibrada, com o mesmo peso de verdade que escuta o que são os países, o que é um verbo e como se faz uma multiplicação. E não sejamos inocentes em achar que esse tipo de conduta por parte de um professor é bizarrice, que é antiquada, inadmissível: são pessoas trabalhando, duramente suportando a tarefa de “ensinar o conteúdo”, tão vítimas da sistemática que engendram quanto agentes desse sistema.

A estruturação da Escola como espaço linear de progressão em saberes, da forma como está organizada hoje, isto é, programada para formar acadêmicos, que não leva em conta as habilidades que não sejam medidas em provas, que ignora talentos que não sejam lógicos, linguísticos ou memorizáveis, que despreza a dança, a música, a intuição, a empatia, a inteligência sinestésica, a inteligência intra e interpessoal; essa escola forma o ambiente em que o professor tem pouco espaço para ser gentil, para tolerar e transformar diferenças em diferencial. Na escola da linearidade, é muito fácil transgredir e toda transgressão pede punição, não é difícil supor o momento em que uma frase irritadiça como “você não faz nada direito” escape da boca do docente, cuja responsabilidade profissional (é cobrado por isso) também é manter a classe quieta.

Enquanto sociedade, devemos refletir o modelo de Escola que viemos sustentando há séculos e  formar uma opinião mais crítica dele. Embora se diga “eu passei por isso e estou aqui!”, “na minha época era pior e sobrevivi” como forma de se defender a manutenção do sistema vigente, podemos tomar as mesmas frases como diagnóstico da falha, pois o “aqui” é o mundo tão criticável que construímos e os “sobreviventes” são os mesmos cidadãos neuróticos desse mundo desigual, competitivo, castrador e frustrador de projetos pessoais. Em uma anamnese rápida, qualquer um desvendará seus traumas identitários, quantas de suas capacidades que nunca conseguiram se manifestar plenamente não são vítimas da opressão das frases de infância “seu inútil”, “não vai dar em nada”, “larga de batucar em tudo, moleque chato”.

WaldorfQuero um mundo melhor e a construção dele se dá agora em cada sala de aula. A possibilidade de produzir-se uma geração capaz de desenvolver suas habilidades plenamente, ou o máximo que quiserem realizar, passa pela reconstrução da principal instituição responsável pela formação da identidade dessa mesma geração. Talvez seja essa a motivação de tantas novas iniciativas pedagógicas que vêm surgindo nas últimas décadas, desde a consagração de métodos alternativos como o Waldorf e o Reggio Emília até o extremo de famílias que decidem por tirar seus filhos dessa instituição e realizarem por si mesmas a educação (de saberes) dos filhos. Brotam, como veneno nas veias de um moribundo, modelos alternativos no sistema educacional brasileiro e, por que não dizer, internacional, visto que o anseio pela construção de uma sociedade melhor não é privilégio nosso (nem a percepção do papel fundamental da Escola nesse processo de transformação).

Concluindo, nada original, colo abaixo dois vídeos de um dos profetas do colapso da Escola (esta criticada no artigo), pelo menos o cara que mais parece querer esse fim e o defende com mais eloquência: Ken Robinson. Os dois clipes são famosos, talvez você já os tenha visto, mas nunca é demais (eu não me canso de rever). O primeiro faz um panorama histórico da instituição, no estilo Draw My Life. O segundo é o fechamento de uma Ted Talks, sua palestra mais famosa. Mais um brinde no final.

1 – Mudando os paradigmas da educação:

2 – As escolas matam a criatividade:

Brinde: Another Brick in the wall – clássico clipe da clássica música do Pink Floyd.

Sobre Adriano Dias

Adriano Dias é um dos idealizadores do projeto, articulista e mergulhador no "mar de signos" em busca de formas curiosas e relevantes de cultura. Também leciona literatura, gramática e técnicas de redação como profissão.

2 comentários

  1. Ana Carolina F. K. O.

    Ken Robinson fala muito da perda da criatividade da criança ao longo dos anos escolares. Ele fala que quando uma criança é perguntada sobre algo ela arruma um jeito de responder, e isso é tido como criatividade.
    Só para ilustrar um pouco seu argumento, já ilustrado no segundo filme.
    Certa vez tive uma prova de Religião, ou melhor, sobre a vida de Jesus, aos 7 anos de idade.
    Na prova havia a seguinte pergunta:
    – Por que as pessoas, na época de Jesus, lavavam os pés quando uma visita chegava em sua casa?
    É claro que eu não sabia a resposta, e não podia deixar a questão em branco. Com todas as minhas certezas respondi:
    – Porque não existia café!

    O que vocês acham, a questão está certa ou errada?

    A professora considerou errada, mas não me disse se na época existia café ou não!

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