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quarta-feira , 20 setembro 2017
Errado sou eu e minhas expectativas exageradas!
Ilustração do italiano Dario Guazzo (https://www.behance.net/_vicvega_)

Errado sou eu e minhas expectativas exageradas!

Ilustração da ucraniana Knysh Ksenya: https://www.behance.net/knyshk326656d

Ilustração da ucraniana Knysh Ksenya:
https://www.behance.net/knyshk326656d

Talvez seja um defeito meu, apenas, mas duvido. Quase todas as vezes que pratico uma ação gentil sinto um enorme prazer (as pesquisas do Dr. Love com a Ocitocina já explicam muito bem esse processo:O amor é químico, está disponível na farmácia), mas há um lapso posterior, quando racionalizo a ação praticada, que quase sempre me leva a criar uma expectativa de retorno. Não que realmente espere da pessoa ajudada um agradecimento, mas caso haja algum gesto rude por parte dela, ficarei tanto mais ofendido quanto julgar ter sido gentil. Ou seja, espero gratidão mesmo se não me pediram ajuda. Se levarmos em conta que gentileza e generosidade são ações ligadas à ideia de desprendimento, tal expectativa mostra uma nódoa estranha em meu coração: talvez vaidade.

Em tese, o prazer de ajudar deveria valer por si e constituir prazer inerente a quem o pratica, independendo da devolutiva para validá-lo, mas quem vive isso? Eu não! Então, errado sou eu e minhas expectativas exageradas.

Escrevi um poema sobre essa dinâmica, esse fenômeno interno que envolve paixões subterrâneas e subcutâneas, que estraga relações e desgosta a vida num amargor de se dizer “que se dane todo mundo!” um dia desses, por conta do acúmulo. Pois parece haver algo de cotidiano (ou, ao menos, regular) em sua ocorrência, consolidando um ranço capaz de criar a seguinte convicção: Ser gentil e generoso é ser otário (ou outra máxima amarga semelhante).

Tal percepção vem amarrando certas partes subjetivas minhas com uma vontade tremenda de tornarem-se objeto concreto e a inspiração veio da vivência que tivemos (eu e minha esposa) com uma pessoa que trabalhava em casa conosco e com a qual tivemos um desentendimento sério. Em resumo, o fato foi este: mesmo não caracterizando trabalho regular, pagávamos os direitos como se assim o fosse, DSR, férias, licenças-médicas. Ao se discutir sobre algum desencontro algo relacionado a seu trabalho, a pessoa mostrou-se enormemente incomodada com os acertos excedentes, entendendo-os como “agrados” não apenas desnecessários, mas ofensivos. A sensação de ofensa foi tão grande que a senhora desabafou uma carga de raiva que nos pareceu acumulada desde sempre, culminando no fim de sua relação profissional com a gente.

Sabemos do paradigma das relações trabalhistas entre patrão e empregado (opressor e oprimido) e temos noção dos sentimentos poderosos que operam secularmente essas relações, portanto, tal discussão nos levou a refletir se algo em nossa conduta não tinha vazado de hostil, alguma palavra mal entendida, se não havia escapado um termo que pudesse dar margem a tanto rancor. Não conseguimos localizar tal fato, mas identificamos a diferença de ponto de vista que nos separava, a forma como víamos a relação trabalhista e a versão dela. Eram verdades incompatíveis. Isso depois de digerirmos um incontrolável sentimento de ingratidão.

Ilustração da alemã Aynur Sfera Sky (http://aynur-sferasky.com/)

Ilustração da alemã Aynur Sfera Sky (http://aynur-sferasky.com/)

Vi aí um paradigma, percebi outras tantas relações que esperamos espelhamento e ele não ocorre, em todos os âmbitos. Desde o indivíduo com o mundo, até as decisões conjuntas de grupos sociais, tribunais, governos, etc., num escrever atemporal desse fenômeno de incompreensão mútua engendrado no binômio expectativa-frustração. Lembrei Schopenhauer e seu vazio, Nietzsche e sua leitura da Caixa de Pandora, Camus e seu Estrangeiro, e tantos monstros que se debruçaram sobre o tema e a permanência de nossa inocência quanto às expectativas. Ainda não enxergamos a teia que nos envolve nas ações que decidimos, portanto, talvez haja em nossa voz, escolha de palavras e gestual, alguma intenção mais profunda e não tão bem intencionada assim. Pior, escapa-nos por completo os processos envolvidos na leitura que o outro faz do que expressamos. Talvez signifique uma ofensa a quem não pediu ajuda aparecer uma mão “amiga”, possivelmente interpretada como “você não consegue fazer isso sozinho”.

Na prática, não temos a menor certeza de que o outro ouve o que queremos dizer. Não fazemos ideia da forma como o outro lê o mundo e nem sobre nossas próprias emoções e intenções mais profundas temos domínio. Ou seja: todos os ingredientes do caos. Os valores pelos quais queremos ser julgados nunca poderiam ser possíveis, dadas as tantas circunstâncias que incidem sobre um juízo de valor em cada alma.

Assim:
não há ingratidão nas ações humanas, senão em quem espera;
não há indiferença nas relações humanas, senão em quem espera;
não há injustiça nas ações humanas, senão em quem espera.
O que há é a decepção de quem espera, a amargura, a frustração de quem não soube avaliar com clareza as suas expectativas quando agiu e o que poderia realmente receber em troca de suas ações: o talvez nada, ou pior, talvez a agressão.

O poema é este:

Errado sou eu e minhas expectativas exageradas,
não o mundo e sua ingratidão,
injustiça,
indiferença…
querer do outro o reconhecimento que não pode reconhecer
quando vemos o mundo por olhos diferentes,
e a justiça é líquida, deformável conforme a alma,
que é múltipla também
e sujeita a critérios que nos fogem
que somos construídos por dores distintas e várias,
particulares cada combinação de tudo que há por aí,
consolidados paradigmas distintos nos querendo aceitação,

se espero receber elogio por um gesto altruísta –
quem me conhece e vê em meu íntimo como é legítimo meu estender a mão?
o que impedirá de me ver inimigo?,
invasor de condescendência vaidosa e vil,
meu sorriso franco como falso orgulho gentil,
do baixo de tanto menosprezo acostumado…

Quem pode ler o que pensa
e vive
e realmente quer dizer o outro?

Errado sou eu postulando ao mundo minha noção de justiça
como algo alheio a minha própria visão,
combinado coletivo,
Ética e valores compartilhados, comuns:
Não há justiça necessária,
respeito obrigatório,
reconhecimento ou gratidão ou compromisso
que eu possa reivindicar por direito!
Não tenho direito a nenhum desses bens supostos fora de mim, dependentes da improvável coerência das almas humanas,
no meio das quais vivo,
expectante
Mendigando espelhamento e compreensão.
Viver é impossível, distante,
enquanto residentes de reinos com Razões superiores,
que aqui no mato da realidade
a espera faz chorar apertadas lágrimas
de injúria, ingratidão, indignação, impotência
entre outros vermes que povoam a inocente morada do espírito!
Errado sou eu!

Sobre Adriano Dias

Adriano Dias é um dos idealizadores do projeto, articulista e mergulhador no "mar de signos" em busca de formas curiosas e relevantes de cultura. Também leciona literatura, gramática e técnicas de redação como profissão.

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