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sexta-feira , 24 novembro 2017
Em Tese, Apenas uma História de Amor: Capítulo 6 (Fecha Parênteses)

Em Tese, Apenas uma História de Amor: Capítulo 6 (Fecha Parênteses)

Ilustração do inglês Tommy Golunski (thomasgolunski.com/)

Ilustração do inglês Tommy Golunski (thomasgolunski.com/)

Não deixaria de ser linda tão cedo. Seu desrespeito às dietas, ao séquito acéfalo das intempéries da moda, Lua provocava o desconcerto pelo ímpeto, originalidade inerente, sempre inteligentemente bela. Usar dos gestos do corpo, combinar peças e cores de roupa, modular a música da voz entre sentidos precisos e surpreendentes na fala, essa inteligência eleva as mulheres ao patamar da irrelevância do corpo. Mas pior: Lua era abençoada com uma silhueta de propaganda de lingerie.

Seus brincos de palha impacientando minhas ambições mineiras na mesma medida que seu batom me doutorava em Madrid, sofisticado.

Estávamos num boteco em frente à praia, a galera. Lua, creio hoje que por minha intermediação, toda a atenção legítima que lhe destinava e, claro, por sua encantadora empáfia, já tinha uma consideração de veterana. Todos a receberam saudosos, minha saudade imemorial.

Nem deu tempo a superficialidades, ao estranhamento, nada aconteceu. Amanhecemos o dia reduzidos, dos 12 ou 15 que compunham as mesas, a 6 sobreviventes. Eu me lembro mais sóbrio que todos, embriagado da epifania em cada palavra que saia de Lua para mim. E foi a maior parte delas.

Foto do português DDiArte DDiArte (www.facebook.com/ddiarte)

Foto do português DDiArte DDiArte (www.facebook.com/ddiarte)

Se lembro dos que ficaram foi por ter sido lembrado por eles, amigos até hoje, restauradores desse filme. Por mim não havia nem garçom, nem praia, nem eu.

Não fosse um sábado, proibidos da boemia desregrada do passado recente, cerceados pelos empregos, necessidade de emprego, faculdade no fim, pré-debut do adultismo, as segundas-feiras acabaram de perder o cheiro de qualquer dia, talvez não tivesse tão romântica e inesquecível essa página de minha vida.

Ela estava de moto, eu com meu primeiro carro velho, o “Bagaceira”, demoramos um dilaceramento de almas em nos despedir. Prometidos de um Domingo no Parque.

Mas é difícil manter a objetividade cronológica do que mais se vive de dentro, subtraído. Desenrolamos o progressivo de nossa sedução em instantes provavelmente fragmentados no calendário, mas imediatos em nossos espíritos.

Aos poucos foram sendo ponderados os alcances reais dos nossos delírios subjetivos, utopias de brinquedo. Independente de toda a amálgama sensual que Lua e eu nos proporcionávamos, o processo aparentemente intermediário de nos mostrarmos atraentes, interessantes mutuamente, educou-nos.

Da fagulha intuída em Carolina, esquecida brasa nos tempos de Rita, no fundo das cinzas, Lua pôs em combustão meus âmbitos de plenitude.

Ilustração da ucraniana Helen Stoyka (https://www.behance.net/hellens)

Ilustração da ucraniana Helen Stoyka (https://www.behance.net/hellens)

Uma grande vírgula derivando essa construção teórica de minha conquista emocional: as palavras que me surpreendia articulando – esse processo sempre me espantou – espalhavam um facho imprevisto de elucidação quanto ao alcance plausível de meus sonhos e as contradições que inviabilizam tanta convicção hipócrita, imediatamente desvendadas como hipócritas, ao longo dos papos por conveniência, ou seja: amadurecia.

Sem pretensões de me autoproclamar Lao-Tsé aos 30 e todos, apenas realço um processo em curso, o balizamento intelecto-imaginativo-emocional pelo qual nos tornamos adultos. Nem vi luz no fim do túnel, o alcance era restrito e a atenção que demandavam os detalhes do ao redor, bem perto, mas nunca visto tão evidentes, impedia o levantar a cabeça.

Qualquer paixão compromete nossa imagem pública. Relembrar-se, alienado das sensações ímpares de cada momento, descortina um espetáculo patético, uma roleta de personagens oportunos, tão mal ajambrados que um observador externo não pode crer tratar-se sempre da mesma pessoa, as mendicâncias de conquistar.

Mas posso estar contaminando este relato, sem imparcialidade alguma, se sugerir a mesma cosmogonia em Lua, preparando as expectativas leitoras na mesma armadilha em que me enredei, metido a Machado de Assis. Talvez a vida interna dela em nada se assemelhasse às exuberâncias que me oprimiam a objetividade.

Ilustração do inglês Tommy Golunski (thomasgolunski.com/)

Ilustração do inglês Tommy Golunski (thomasgolunski.com/)

Devo dizer que achava Lua envolvida em meus engenhos, paralelismo. Pode ser que entendesse a construção e reconstrução de sua imagem em mim interiorizada e deduzia a cumplicidade. Mas sou obrigado a dizê-lo para ser bem entendido e mergulhar convicto nas conjecturas de suas emoções ao meu lado, para o meu lado, no inevitável dela pertencer, dialogia, à arquitetura desse edifício.

Se hoje minha doutrina garante os pilares de sustentação de uma plena e grandiosa felicidade, os sinais, os dogmas e certos rituais, largados como supérfluos ao longo dos anos, foram forjados no percurso desses detalhes cognitivos, na margem de me ver ao meio justamente quando, com Lua, sonhava-me inteiro.

Dizer que ela estava apaixonada por mim remete a uma passividade que nunca nos houve. Articulava meandros de selvagem e indefesa em fração de segundos, aguçando-me de rasgá-la a encaracolar-lhe os cabelos.

Leia os capítulos anteriores:

Capítulo 1: Carolina

Capítulo 2: Rita

Capítulo 3: Lua

Capítulo 4: De Lua

Capítulo 5: Parênteses e Hipóteses

Sobre Adriano Dias

Adriano Dias é um dos idealizadores do projeto, articulista e mergulhador no "mar de signos" em busca de formas curiosas e relevantes de cultura. Também leciona literatura, gramática e técnicas de redação como profissão.

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