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sábado , 29 abril 2017
Em tese, Apenas uma história de amor: Capítulo 4 (De Lua)
Ilustração sobre foto da italiana Lente Scura (https://www.behance.net/LenteScura)

Em tese, Apenas uma história de amor: Capítulo 4 (De Lua)

Tela da bielorrussa Valeryia Lemiasheuskaya (http://luna.pictures/)

Tela da bielorrussa Valeryia Lemiasheuskaya (http://luna.pictures/)

DE LUA

Quase diariamente via Lua, pelo que, se conto esse passado criando uma lógica no desenvolvimento de minha paixão e na sedução de Lua, minto com o pedantismo das generalidades. Mantínhamos uma relação constituída de instantes, estados de espírito e interesses diversos, encantávamo-nos progressivamente. Encantava-me a independência desconcertante com que peitava suas decisões e desprezos. Eu, que me orgulhava de observar o mundo pelos mais diversos prismas, sempre trazendo um foco não visto às discussões, recebendo o óbvio novo na cara, impregnado de uma verdade crua e inquestionável. Ela, que tinha em minha retórica o desenvolvimento e a legitimação de suas opiniões. Isso conquista partes da alma que o xaveco não alcança.

Hoje me parece que, desde o começo, noves fora toda essa parafernalha abstrata, no primeiro momento que a vi, agarrava e comia. Para ela, sei que, não havendo o ataque dos abutres desesperados a confundir-lhe os sentidos e os âmbitos de auto-estima, agarrava-me e comia. Esse ponto é relevante, pois perfumava os instantes ordinários da cotidianidade em nossa relação, recém-amigos.

Um problema foi o ciúme de Deco, inseguro com razão, posto que não tinha lá muito a oferecer. Meio mala, vomitava frases feitas dramatizadas como um acadêmico. Nem era muito considerado, sua inconstância emocional criava cismas em todas as rodas. Mas Lua demonstrava um certo senso de responsabilidade para com os caras com que estava. Não que fosse incapaz de trair ou largar alguém, mas parecia guiada por um parlamento interno que arbitrava suas decisões, comumente contraditórias, mas não sem antes fornecer as bases de sustentação de suas atitudes, bem como os meios de manter tudo ao seu redor sob controle.

Quanto ao Deco, parece-me que lhe despertava a recordação de sua dor quando largada pelo Binho (daí a convicção do início de sua libertação nesse namoro), em projeção, talvez a vinculando a uma responsabilidade sobre as dores hipotéticas que Deco sentiria ao ser largado. Isso percebo hoje, mas, na hora, era constrangedor. Num momento estávamos encantados com qualquer assunto, agradável a nós dois e aos ao nosso redor (fosse quem fosse), e em outro, Deco fuzilando todos os olhos, Lua submissa, enjoando todos os estômagos.

Tela da bielorrussa Valeryia Lemiasheuskaya (http://luna.pictures/)

Tela da bielorrussa Valeryia Lemiasheuskaya (http://luna.pictures/)

(Creio que parte do encanto que alimenta o desejo reside nos futuros planejados que coincidem. Vivermos idilicamente uma viagem ao redor do mundo, pelo Brasil de carona, ou qualquer pieguice hippie do estilo que tivemos, estabeleceu uma cumplicidade emotiva dos nossos passados pressupostos.A luz desse paradigma esclarece parte de meu mergulho em Carolina, em tantos futuros inevitáveis que administrei, fantasia. E que Carolina foi delírio e me desnorteou por não ter reverberação, meu interlocutor era imaginário. Daí o alicerce da necessidade para a simbiose, marcando e presentificando a plenitude e o porvir.

Ainda explico melhor.)

Jogávamos, Lua e eu, nos nossos quandos enquanto Deco, um pingue-pongue de planos, descartando, aos poucos, os nos quais não cabíamos os dois. Talvez tenha sido o prazer da verossimilhança que se encontra no eco dos próprios sonhos. Ou era o prazer que tínhamos em agradarmos um ao outro. De mim era ambos. Fiz, assim, a terapia de sua libertação de Binho, acreditava, enquanto ela se penitenciava em Deco.

Nesses momentos de transcendência acompanhada, plateia sem convite envergonhando nossa intimidade nua, via-me obrigado a disfarçar argumentos contra-culturais, opressão do capitalismo, alienação da sociedade urbana, e essa diluição, aos poucos, inquietava, na possibilidade de não me fazer entender que queria, mesmo, que se fodesse a sociedade, a revolução e todos ao nosso redor menos ela. Sem querer, gerenciava mistérios de querê-la, o que é norma obrigatória no decurso da sedução.

Em meio a radicalizações e reputações a zelar de qualquer roda de amigos, havia a fauna mais diversa, dos espécimes raros que incorporavam, do vestuário à escolha de palavras, a ideologia escolhida, até os alienígenas sem saber o que faziam ali, ou os insignificantes que nem sei mais quem eram. Estes últimos encontramos pelo resto da vida desconcertando-nos com tanto afeto e lembranças de cenas que juramos não termos vivido.

Pereba era punk mais no cheiro que no que dizia ou fazia. Punkzinho inofensivo, meio jejo. Seria adorável, não fosse tão abjeto. Andava como beduíno entre as rodas dando-nos a vaga intuição do preconceito. Uma semana após o término com Deco, gritos de fúria, feições desfiguradas, ameaças de morte, até o choramingo contínuo e entediante da conformidade, Lua nos surge ao lado da figura. De certa forma emperebava Lua, mais que Lua o enobrecia. Às vezes acho que há um senso humanitário que se manifesta nessas tentativas de resgate social das mulheres. Tive esse insight no instante que flagrei o beijo seboso dos dois. Percepção amarga.

Minha Lua de Calcutá minguava e chegou a sumir uns dias. Quando reapareceu, foi como se nunca estivesse conosco antes. Calçara os pés, batom na boca, nenhum resquício de repugnância.

Pereba ressurgiu um tempo depois, eu acho, tocando a vida.

LEIA OS CAPÍTULOS ANTERIORES:

1- CAROLINA

2- RITA

3- LUA

Sobre Adriano Dias

Adriano Dias é um dos idealizadores do projeto, articulista e mergulhador no "mar de signos" em busca de formas curiosas e relevantes de cultura. Também leciona literatura, gramática e técnicas de redação como profissão.

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