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terça-feira , 20 fevereiro 2018
Desista de seus sonhos, conquiste este direito!

Desista de seus sonhos, conquiste este direito!

(ilustração de Carl Bannister)

É um conselho que não estamos acostumados a ouvir. Digo mais, o mundo contemporâneo demonizou o verbo desistir, encurralado pela correnteza do discurso auto-ajuda picareta, da PNL, dos programas de recuperação de auto-estima caça-níqueis, casulos, reportagens de revistas semanais, Fantástico, todo mundo precisa acreditar em seus sonhos e não desistir nunca!

É necessário que se diga que muitos de nossos sonhos são estúpidos e é duvidoso que realizá-los vai mesmo nos tornar realizados. Não é nada incomum nos decepcionarmos com a conquista de algo que um dia julgamos ser fundamental à nossa felicidade. Impedir a possibilidade da desistência é limitar a liberdade de refletir sobre nosso projeto de vida, sobre o que somos, o que nos faz feliz, o que queremos realizar com nossa existência.

Antes de continuar quero deixar claro, embora vá parecer o contrário o tempo inteiro, que não estou defendendo aqui que não se sonhe mais, não se lute por objetivo algum e derrotismos do gênero, mas apenas tentando resgatar o valor da possibilidade de desistir, de abrir mão sem sentir-se culpado por isso, ou um completo fracassado. Quero tentar provar que há casos em que desistir pode ser uma atitude em direção ao sucesso.

Mas vamos esclarecer algumas etapas desse processo.

1. Eu quero:

Somos seres sociais e, enquanto tal, formadores e formados pelo meio em que crescemos, com o qual nos envolvemos. Somos instruídos pelos pais, escola, filmes que vemos, livros que lemos, propagandas publicitárias a que somos submetidos, moldados em maior ou menor escala por esse conjunto de valores e estímulos a desejos. É bom dar uma paradinha para pensar quais as forças que condicionam cada desejo que nos move, desde as primordiais, como o instinto de sobrevivência, até as mais complexas como a elevação da alma. Pode ser que o que eu acho que quero seja fruto de um momento, de uma influência do meio? Oooooops!

Pense em uma criança que passe algumas horas de seu dia, todo dia, exposta à comerciais nos intervalos da Cartoon Network. Quando chegar o Natal, ela terá certeza de querer o brinquedo cuja propaganda mais o sensibilizou, ou estimulou sua imaginação. Tenho três filhos e verifico isso. Queríamos dar uma bicicleta a meu filho, mas ele tinha certeza que queria um brinquedo que tínhamos certeza que ele não brincaria por mais de algumas horas. Demos a bicicleta e ele amou. As crianças não querem o que querem, mas o que são estimuladas a querer. Por que crer que conosco opera diferente o sistema de desejo, não só relativo a consumo, mas mesmo no que se refere à decisões como profissão a seguir, local a visitar em uma viagem, objetivos mais maduros?

2. Eu posso:

Ainda que se aceite a ideia (agora mais difícil de admitir) de que meus sonhos para mim mesmo são originais, legítimos e provenientes do mais profundo de minha alma, das convicções que tenho sobre mim, sobre o que sei que me realizará, ainda assim é necessário levar algo em consideração: posso estar errado. Até sobre minhas convicções a meu respeito, mas principalmente sobre o que projetei acerca do sonho. Deixe-me esclarecer: sonhar algo é, por princípio, antecipar uma realização, projetar em algo que não se tem (ou não se é, como uma profissão) um estado de espírito que julgamos que iremos sentir, e vivenciar essa realização em hipótese. É nessa hipótese que se encontra a possibilidade da falha, pois sempre pode ser que não seja como esperávamos (ah, como a vida nos frustra!). Decidimo-nos a enfrentar uma jornada de sacrifícios para realização de um projeto também pela obrigação de nos mostrarmos capazes de realizar algo, seja para nós mesmos ou para o resto do mundo, nossa plateia imaginária (como se alguém acompanhasse nossa vidinha).

Há uma frase feita permeando o mundo competitivo atual que é “eu posso fazer qualquer coisa, basta esforço e dedicação”. É bonito, soa bem, enche a gente de autoconfiança, uma sensação muito agradável, mas é bem questionável. Acreditarmos piamente nessa afirmação amplifica a sensação de fracasso quando não percebemos sucesso em certas empreitadas, roubadas em que nos metemos. Há que se levar em conta a possibilidade dessa frase ser uma tremenda estupidez, de que talvez sejamos diferentes em termos de habilidades e competências, bons para algumas coisas e totalmente ineptos para outras. Chega a ser evidente que somos bem diferentes em termos tanto físicos quanto intelectuais.

Não que seja impossível aprender a jogar bola, tocar guitarra, escrever um livro, pintar um quadro e aprender uma linguagem de computação, mas é importante perceber quanto de energia que será despendida pra se chegar a tal resultado, caso não tenhamos aptidão. Será que não vale mais a pena gastar a mesma dedicação em algo que somos bons e temos prazer em realizar? Não deveria ser tão vergonhoso começar a treinar uma habilidade e, ao descobrir uma certa falta de aptidão (que só nós mesmos somos capazes de identificar) simplesmente mudar a escolha, abandonar o processo e focar em outra direção.

3. Eu vou conseguir:

É possível que quando conseguir comprar o que sonha comprar, ou tornar-se o profissional que sonhava se tornar, não encontre a realização que vinha projetando, podendo, inclusive, encontrar uma série de inconvenientes que não faziam parte dos planos, gerando nova insatisfação, frustração e sensação de ter sido enganado. Pior é que muitas dessas decisões baseadas em busca de sonhos são irreversíveis.

Há quem diga que a vida se resume à estipulação de metas a serem alcançadas e, alcançadas, lançam-se outras metas, assim por diante. Pode ser. Mas o que acontece quando uma meta alcançada, principalmente quando faz parte de um plano maior, é apenas uma etapa, quando essa conquista não se revela aquilo que se previa? Invalida-se todo o projeto? Por que não? No mínimo ele deve ser repensado. Se você planeja tornar-se juiz de direito e já na conclusão da faculdade percebe o quanto se decepcionou com sua formação, com a forma como terá que trabalhar, com a rotina de vida a que será sujeito, nada mais coerente que repensar o projeto da magistratura. Mas não podemos desistir nunca. Às vezes, a obsessão pela conquista de um objetivo previamente traçado impede que se observe alternativas talvez mais vantajosas, ou que possibilitassem uma realização mais plena que aquela que se procura.

Eu desisto:

Eu quero (preciso verificar quais os reais motivos que me levam a querer o que quero); Eu posso (não custa uma boa dose de autocrítica e percepção de si mesmo); Eu vou conseguir (eu acho! e se não for bem o que estiver pensando?)

Precisamos nos reservar ao direito de desistir, deixar o livro pela metade quando achar que não prestou, sair no meio da sessão de cinema se o filme for ruim, mudar de profissão mesmo com uma carreira promissora, mudar de rumo. É uma decisão tão corajosa (cada vez mais) quanto seguir em frente contra todas as adversidades para atingir um objetivo. Não nos tornamos desistentes em tudo, não abraçaremos o estigma de nunca terminar nada, não há relação necessária entre essas coisas, apenas temos o direito de desistir quando quisermos. Mesmo se nunca terminarmos algo, ainda assim podemos ser felizes, a regra de que só é feliz quem termina o que começa deve ser posta em cheque, pois tem agredido muita gente.

Talvez haja um pré-programação cognitiva para projetarmos metas e cumprir o plano traçado, uma pequena obsessão que levada ao extremo vira TOC, tudo com começo, meio e fim, cada um em seu lugar. Temos o direito de duvidar desse princípio, de pensar que a existência pode ser abençoada com uma infinidade de possibilidades acidentais nos exigindo o desenvolvimento de novas habilidades constantemente. Afinal, temos um vasto registro na história da humanidade de pessoas que perseguiram seus sonhos e terminaram seus dias com um nível bem mediano (para não dizer pífio) de realização pessoal.

Lembre-se, desistir pode ser sinônimo de MUDANÇA, não necessariamente de fracasso. Conquiste o direito de desistir quando lhe parecer a melhor decisão.

Sobre Adriano Dias

Adriano Dias é um dos idealizadores do projeto, articulista e mergulhador no "mar de signos" em busca de formas curiosas e relevantes de cultura. Também leciona literatura, gramática e técnicas de redação como profissão.

7 comentários

  1. A vida é muito curta pra viver seguindo padrões, se não se sente realizado e feliz com algo, é melhor chutar o pau da barraca. Sob o artigo, genial! Obrigado por tê-lo postado, gostei muito.

  2. o mundo contemporâneo demonizou o verbo desistir. poxa pela primeira vez vejo alguém dizer uma informação que eu concordo sobre o tema. Perfeito.

  3. E, acima de tudo: FODA-SE a opinião alheia!!!!!!!!!!!!

  4. Que ótimo texto! Favoritei aqui e irei passar para alguns amigos e familiares, falaste grande verdade sobre esse condicionamento que temos desde pequenos e de tudo para não desistirmos, ter a obrigação de conquistar o que desejamos para nossa plateia imaginária (gostei do termo). Ultimamente tenho tido problemas com isto, estou no meio de uma certa crise existencial e tenho visto que muitas das coisas que eu planejava não vão funcionar como gostaria e o quanto isso vai me impactar; é melhor mesmo não me preocupar com isto, muita das vezes que conquistei o que queria acabei me encontrando numa insatisfação, como diria Schopenhauer, a vida é um pêndulo entre a dor e o tédio, dor ao não se ter o que deseja, e tédio ao se conquistar ao que se desejava.

    • Obrigado, Caíque. A crise existencial pela qual você passa (não querendo me arvorar a psicanalista) é uma crise contemporânea, comum a todos, justamente fruto desse obsessivo meio de competição que criamos, que está atingindo seu ápice, estamos quase em colapso e as crises individuais são reflexo dessa crise coletiva. Ainda me parece que vivenciar essa crise (e superá-la) é uma etapa evolutiva inevitável, ou seja, talvez seja necessário percebermos em nós (indivíduo e sociedade) as dores e o tédio desse ciclo busca-conquista-frustração para reelaborarmos nosso projeto de vida (e de sociedade).
      Escrevi o texto pensando numa força poderosa que está no ar, um vetor determinante de nossas decisões, imperativo que diz: Não desista! De tão poderoso, esse discurso estupidifica a gente, impedindo que reflitamos com ponderação nossas escolhas. Quem disse que tudo o que começo é necessário acabar. Qual o critério que determina um fracassado alguém que se inicia em 30 áreas do conhecimento diferentes (e não conclui nenhuma), e realizado quem escolhe apenas 1 forma de viver sua vida e a segue obstinadamente até o fim?
      Estranho critério!
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