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quinta-feira , 27 abril 2017
Crônica: O que mais gosto em você

Crônica: O que mais gosto em você

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Ilustração de Shannon Keller:
www.flickr.com/photos/shannonkeller

Tá comigo. Conto 1, 2, 3, e depois paro de contar. Deve ser esse meu tal déficit de atenção. Eu era pequeno quando uma abelha rodeando o canudo do refrigerante ganhava tom de terremoto no Japão; detalhes irrelevantes sempre prenderam minha meliante atenção. O que há de flor na Coca-Cola, dona abelha? Talvez tenha se confundido. Na busca pelo néctar, há quem ache coisa mais gostosa. Ainda me distraio com abelhas e, hoje, quando tapo meus olhos, percebo que nem preciso te procurar. Te encontro no cerrar das minhas pálpebras, que coincide com o desatar do meu sorriso. Digo, eu me preocupo com o Japão, mas minha mente vai mais longe. Ela sempre foi. Atravessa Nárnia, passa pelas botas de Judas, e chega onde o frete nunca é grátis. Aterrissa num mundo em que o zumbido vindo de uma colmeia me pergunta em coro o que há de flor em você. Respondo que você é mais doce que Coca-Cola, – mas pra tirarem o olho, porque sei do seu medo de inseto.

Tela de Dessie Jackson (http://dessiejackson.tumblr.com/)

Tela de Dessie Jackson (http://dessiejackson.tumblr.com/)

Difícil dizer o que mais gosto em você. Evito clichês; não direi que é seu cheiro, nem o seu sorriso. Digo às abelhas que o que eu mais gosto em você ninguém pode ver. Talvez você seja resultado do meu astigmatismo, um borrão da minha miopia. Forço a vista, mas o que enxergo é algo que só encontro em pedaços de músicas, em trechos de filmes. Sinto que está em suas brechas. Não é algo exposto, notório, descoberto. É aquele acorde sustenido no fundo de uma canção, aquele pote de sorvete no meio de potes de feijão. Silêncio. Tem que prestar atenção. Está entre uma risada e outra; entre um sorriso e o próximo; entre suas falas; está entre seus gestos. É uma pequena- e imensa- fresta preenchida pelo seu mais curioso jeito de ser. É ali, onde ninguém vê, onde você não sabe que está sendo vista. São momentos, curtos instantes que se acumulam invisivelmente. São suas transições, as mudanças entre seus vestígios. Mas noto que as abelhas já não me escutam mais.

Volto à Terra. Conto 8, 9, 10. E lá vou eu. De olhos abertos, prefiro deixar você escapar dessa vez. Não guardo caixão apenas pra vê-la salvar o mundo. Eu disse que me preocupo com o Japão. Tá comigo de novo. Entende? É tudo sobre o alternar dos seus gestos; sobre terremotos, sobre abelhas, sobre nada. Na busca pelo néctar, há quem ache coisa mais gostosa. Conto 8, 9, 10. Te achei, tá com você.

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Sobre Luks Ramos

Autor do livro "Frentes e Versos" (http://www.literabooks.com.br/frenteseversos), pela LiteraBooks, Lucas tem uma imaginação com síndrome do pânico. Não há espaço interno que a satisfaça. Então conversaram e lhe foi oferecido o papel. Depois foram convidados a publicar suas belas insanidades por aqui. Aceitaram.

Um comentário

  1. Que texto bom! Te pega pelas letras do início ao fim. Parabéns ao Lucas, que escreve muito bem.

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