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sexta-feira , 23 junho 2017
Carpe Diem: você está vivenciando o fim do mundo.

Carpe Diem: você está vivenciando o fim do mundo.

Fim-do-MundoJá está em andamento o fim dos tempos: nós estamos protagonizando o Armagedon. Não é nada como se imagina, com terremotos, furacões, lava e enxofre, mas um processo de renovação que já vem ocorrendo, gradativamente, em direção à fundação de um novo modelo de vida. A prova poética irrefutável é o Carpe Diem.

Para ser objetivo e evitar o desperdício de um possível leitor com mais pressa, desde já resenho o que defenderei: desde o surgimento da expressão, sempre que os poetas se valeram do Carpe Diem, flagrou-se na história da humanidade, um fim de mundo, de um modelo de vivência, de um tempo. Partindo do princípio de que a Arte é a expressão intuitiva do que está no ar, isto é, o poeta é um cara que sente a Vibe do momento, pode-se concluir que quando surge, como nos dias de hoje, recorrentemente, o Carpe Diem, o mundo está acabando!

Horácio de von WernerO primeiro registro desse termo, pelo que podemos distinguir o inventor da expressão, foi com o poeta romano Horácio, que teria vivido até o ano 8 a.C. ” Enquanto estamos falando, terá fugido o tempo invejoso; colhe o dia, quanto menos confia no de amanhã.” Este artista, que viria a se tornar o Deus da poesia, construía, em seu diálogo poético com o personagem Leuconoe, o conceito de dedicação integral à existência a partir da disciplina, filosofia e meditação (práticas epicuristas), em função de um desenvolvimento interior rumo à plenitude do ser. Quer dizer: Carpe Diem era sinônimo, sim, de vivência plena, mas nada de loucuras, drogas, ou sexo selvagem, muito pelo contrário: vida dedicada ao espírito.

O curioso é que o termo surge quase como marco do início do período que viria a ser chamado posteriormente de Pax Romana, ou “Era Dourada” do império, que floresceu no desenvolvimento das artes, da economia, da expansão territorial, na organização social, sedimentação do idioma, em substituição aos regimes vários (e mais atrasados, argumentariam alguns historiadores) que antecederam à época de Horácio. Ou seja, o poeta presenciou os tempos de transformação do mundo pré-Império Romano propriamente dito do mundo organizado por aquele povo (a que Horácio pertencia). Ele protagonizou um fim de mundo (as sociedades, regimes legislativos,  costumes, nunca mais foram os mesmos após as conquistas romanas).

O termo praticamente desaparece das escrituras poéticas até um período igualmente marcante, no que se refere à euforia do progresso, da expansão territorial, das descobertas, mais um período que marcaria a renovação da civilização ocidental para sempre: o Renascimento. Alguns dos principais nomes renascentistas especularam sobre a necessidade de viver intensamente cada momento, produzindo incansavelmente. Os principais foram William Shakespeare, Michel Montaigne e o nosso Luís Vaz de Camões:

William Shakespeare

O mistress mine, where are you roaming?
O stay and hear! your true-love’s coming
That can sing both high and low;
Trip no further, pretty sweeting,
Journey’s end in lovers’ meeting–
Every wise man’s son doth know.

What is love? ’tis not hereafter;
Present mirth hath present laughter;
What’s to come is still unsure:
In delay there lies no plenty,–
Then come kiss me, Sweet and twenty,
Youth’s a stuff will not endure.

Montaigne“Meditar sobre a morte  é meditar sobre a liberdade;
quem aprendeu a morrer, desaprendeu de servir;
nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu
que a privação da vida não é  um mal;
saber morrer nos exime de toda sujeição e coação.”

Luís Vaz de Camões
Porque, enfim, tudo passa;
Não sabe o tempo ter firmeza em nada;
E nossa vida escassa
Foge tão apressada
que quando se começa é acabada.

 

Imagem-Filosofia-Homem-Vitruviano-Leonardo-Da-VinciAs Grandes Navegações, a Prensa de Guttemberg, os instrumentos de navegação, a física de Newton, Galileu, da Vinci, a perspectiva, todo um mundo novo nascia. Todo um mundo velho, baseado no feudalismo, no escambo, no domínio absoluto da Igreja no pensamento humano, estava vindo abaixo.

O tema reaparece durante o Barroco, mas já com significado alterado, denotando quase um desespero em experimentar a existência mediante a possibilidade do julgamento e condenação divina quando morrermos. O homem barroco, sob a pressão renovada da contrarreforma católica, dividido entre a carne e o espírito, encontra no Carpe Diem a expressão máxima de sua angústia: a necessidade de viver os prazeres da vida ante a culpa, o pecado dessa satisfação. Poderíamos deduzir se tratar do último suspiro de um mundo velho, de tempos que já deviam ter sido ultrapassados, mas mantinham resquícios de poder, encarnado pelo discurso autoritário da Igreja e sua “santa” Inquisição.

Os anos se passam e mesmo esse mundo novo viria ruir. O final do século XVIII presenciou, talvez, a maior transformação social que a humanidade já viveu (segundo Eric Hobsbawm) desde a invenção da escrita: as revoluções Industrial e Francesa. A primeira inicia o processo que aniquilaria os meios de produção artesanais, o escambo, as comunidades rurais, a herança de ofício, criando o emprego, a metrópole produtiva, a produção em massa, a impessoalização das relações comerciais. A segunda propaga ao mundo os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, desbancando os governos absolutistas e inaugurando a democracia moderna.

Na poesia, os árcades brincavam de ser gregos camponeses e seus eus-líricos fruíam o Carpe Diem nos campos que cada vez mais se extinguiam pela Europa. Novamente o termo passa a assumir o significado de produtividade do espírito, equilíbrio entre razão-emoção, cortar o fútil, como vemos no poema abaixo, de Tomás Antônio Gonzaga:

FRANOI~1 Tomás Antônio Gonzaga[…]Com os anos, Marília, o gosto falta,
e se entorpece o corpo já cansado:
triste, o velho cordeiro está deitado,
e o leve filho, sempre alegre, salta. 
A mesma formosura
é dote que só goza a mocidade:
rugam-se as faces, o cabelo alveja,
mal chega a longa idade.
Que havemos de esperar Marília bela?
que vão passando os florescentes dias?
As glórias que vêm tarde, já vêm frias,
e pode, enfim, mudar-se a nossa estrela.
Ah! não, minha Marília,
aproveite-se o tempo, antes que faça
o estrago de roubar ao corpo as forças, 
e ao semblante a graça!

Os anos que se seguiram foram de progresso tecnológico nunca antes experimentado, ainda viveríamos uma (chamada) segunda revolução industrial, com o investimento em laboratórios de pesquisa nos anos que precederam o século XX. Invenções como o telégrafo, telefone, gramofone, lâmpada, refrigerador, cinemascópio, máquina fotográfica, avião, carro, rádio; tais aparelhos são fruto de um processo virtuoso iniciado e percebido pelos poetas desde as grandes revoluções. Assim, novamente, os artistas flagram intuitivamente o “fim do mundo”, ou de UM mundo. O século vinte veio consagrar, mesmo com suas grandes guerras, o modelo de vida baseado no capitalismo industrial, competitivo, impessoalizante, acumulativo, criado nos idos de 1780.

 carpeBem, finalmente chegamos aos dias atuais, viramos mais um século, melhor, mais um milênio e eis que, curiosamente, de uns vinte anos para cá o cinema, a literatura, a música vem trazendo à tona, reiteradamente, nossa expressão profética: Carpe Diem.

Nada mais comum que ver nos braços, tornozelos, pescoços, costas, ou até no peito a inscrição latina tatuada (ou suas variantes, como viv la vie, ou vida loka). O conjunto simbólico mais recorrente ao nosso redor, seja em campanhas publicitárias, seja em camisetas, ou mesmo tatuagens, são relativos à expressão de liberdade, hedonismo, vivência plena, experimentar a vida: Carpe Diem.

Ainda há controvérsias sobre que tipo de Carpe Diem estamos presenciando, se é o caso Árcade, anunciando a transformação dos modos de funcionamento da dinâmica social como um todo (produção, consumo, relações humanas) em direção a um período de bonança, prosperidade e melhoria de qualidade de vida, ou se estamos envoltos no processo angustiado, desesperado do homem barroco, louco por uma saída para seu conflito interno, suas contradições. É possível defender ambas as teses, embora prefira pensar na primeira como a mais provável.

O fato é que, independente do destino que estamos traçando ele é algo nunca antes visto, totalmente inovador e dificilmente previsível. Estamos mexendo com estruturas sólidas, as bases que sustentam o mundo moderno estão ruindo. Pode-se discutir em artigos independentes a crise na escola, na família, nos relacionamentos humanos, nos processos de produção, nas relações trabalhistas, governamentais, de relação com a natureza, com o cosmos e mesmo com Deus (cada vez mais distante, ou fictício). Cada instituição que julgamos fundamental para a existência de nossa civilização está em crise.

Como todo processo de fim de mundo, há os conservadores, os revolucionários e todo o resto, talvez nós, assistindo pela TV (enquanto ela existir), apavorados, como vai ser o combate final.

 

O uso recorrente da expressão Carpe Diem sempre esteve ligada a períodos de grandes transformações na história da humanidade. Desde Horácio até as tatuagens de asas, gaiolas abertas, viv la vie, Carpe Diem, parece que o inconsciente coletivo nos diz o que estamos presenciando: o Fim de um Mundo.

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Sobre Tatarana

Tatarana é o segundo codinome de Riobaldo em sua jornada por vingar Joca Ramiro. Ainda se tornaria Urutu Branco, mas sob possessão. Tatarana é preciso e um tiro de sua espingarda, dizem, chegou a tombar três corpos.

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