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sexta-feira , 26 maio 2017
Aula de Literatura Proibida: escritos alucinados

Aula de Literatura Proibida: escritos alucinados

Pablo Picasso - O bebedor de Absinto

Pablo Picasso – O bebedor de Absinto

“Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.” – Manuel Bandeira

A primeira aula de literatura proibida teve como assunto o SEXO (Aula de literatura proibida: Hilda Hilst (a mais maldita das escritoras brasileiras), agora, o tema é DROGAS.

Durante os anos de escola, somos apresentados à produção incrível dos mestres das artes, que compuseram, ao longo da história da humanidade, o arcabouço cultural do que há de mais significativo da produção do homem. Quadros, esculturas, poemas, todos bem explicados em seus respectivos contextos de feitura, contribuindo para reforçar a aura de semideuses, gênios sobre cuja vida pouco se fala, pois dariam péssimos exemplos. Boa parte dos artistas que viriam a se tornar clássicos com o passar dos anos tiveram vidas das mais avassaladoras, indignas de serem contadas para não incentivar as crianças a fazerem o mesmo. O problema é que deixar de abordar a produção desses artistas, relativas às transgressões comportamentais, é estiletar uma parte significativa de suas obras e, pior, impedir que se compreenda e se discuta com profundidade a relação entre a adulteração do estado de consciência e a produção artística.

O que dizer de Lewis Carrol, em seu clássico infantil Alice no País das Maravilhas, com a protagonista comendo cogumelos que modificam por completo a realidade, ou a lagarta fumando narguilé. Não há evidências de que o escritor tenha consumido alcaloides ou fumado algum entorpecente, mas é difícil descartar as evidências de que tais passagens do livro sugerem os efeitos conhecidos das respectivas drogas. O mesmo se aplica a José de Alencar que, em Iracema, cria ao menos três cenas alucinógenas envolvendo o “segredo da Jurema” que a índia tabajara possuía, uma bebida mágica que coloca os índios e Martim, seu amado português, em sonhos. Difícil crer que o CDF José de Alencar tenha experimentado tal substância, contudo, a presença do consumo de droga e do decorrente estado de espírito é algo que não passa desapercebido.

Não foram poucos os artistas que, mais do que escrever alguns versos sobre suas drogas prediletas, fizeram apologias descaradas, relatos descritivos e poemas inteiros induzidos pelos efeitos dos narcóticos. Os mais descarados, como Baudelaire, Bukowski, William Burrougs, William Blake e Adouls Huxley, sentiram-se livres para tratar de seus entorpecentes sem restrições, com toda clareza. Mas encontramos sugestivas referências a drogas em muitos poemas clássicos, como o famoso “Vou-me embora para Pasárgada”, de Manuel Bandeira, em que afirma seu desejo de migrar a uma terra onde “Tem alcalóide à vontade” (na época havia o acento no ói), em referência ao alucinógeno proveniente dos cogumelos. Detalhe pouco mencionado nas aulas escolares.

Mesmo Drummond, o mais careta dos nossos poetas (ainda falarei de seus poemas eróticos), em sua crônica “Ficar em Casa”, faz a seguinte referência “O instante em que a agulha fere o disco sem despertar ainda qualquer som. Andar de um quarto para outro sem ser à procura de objetos: achando-os. Descobrir, sem mescalina, as cores que a cor esconde; os timbres entrelaçados no ruído. Olhar para as paredes, ou melhor, olhar as paredes em torno dos quadros. Sentir a casa como um todo e como partículas densas, tensas, expectantes, acostumadas a viver sem nós, à nossa revelia, contra o nosso desdém. “

O bebedor de Absinto

O Bebedor de Absinto. Tela de Édouard Manet

Cada droga teve seu momento na história da literatura.  Durante a Belle Époque, o uso de drogas como absinto, ópio e haxixe embalou a produção de movimentos artísticos inteiros, como o Expressionismo, o Simbolismo e o Impressionismo. Édouard Manet pintou sua tela “O bebedor de Absinto” (ao lado) um ano após Charles Baudelaire publicar seu “Poema do Haxixe” que, ao contrário do que parece, trata-se de uma prosa poética que debate o impacto do uso de drogas na sociedade de sua época. Mais tarde, ainda publicaria seu mais famoso trabalho, “Paraísos Artificiais”, dando continuidade à sua profunda reflexão sobre o uso de drogas: “Considere-se, se se quiser, esta forma de linguagem uma metáfora excessiva, mas eu confessarei que os venenos excitantes me parecem não apenas um dos mais terríveis dos mais seguros meios de que dispõe o Espírito das Trevas para recrutar e escravizar a deplorável humanidade, mas mesmo uma das suas incorporações mais perfeitas”

Já o século XX viu emergir novas drogas alucinógenas, como o cogumelo e o peyote. O inglês Adouls Huxley, após provar uma viagem alucinógena com peyote, decide investigar poético-cientificamente sua imersão no universo interno adulterado pelos efeitos da mescalina. Então, escreve o que viria a se tornar um dos maiores clássicos da literatura sobre alucinação por conta de uso de entorpecente: “As portas da percepção” (título inspirado em uma citação do poeta alucinante William Blake). Em “Admirável Mundo Novo”, quando cria um mundo futurista baseado na linha de produção fordista, a estratégia de controle social e subjetivo que ele cria é uma droga, chamada SOMA, que propiciaria um tremendo bem estar, capaz de tornar todos em pacíficos e afetuosos entre si. Já em outro livro seu, “A Ilha”, em que leva mais a sério a concepção de uma sociedade ideal, apresenta um estranho ritual em que os estudantes, ao concluírem os estudos, escalariam em grupo uma montanha até uma gruta, onde tomariam um chá de cogumelos para marcar o fim de sua juventude e ingresso na vida adulta batizados com uma “nova percepção” de realidade.

William Blake - O Matrimônio entre o Céu e o Inferno

William Blake – O Matrimônio entre o Céu e o Inferno

Octavio Paz, mexicano Nobel de Literatura, autor de uma obra fortemente influenciada pelo Surrealismo, conheceu o universo das drogas por causa da arte, buscando novas formas de perceber e explorar a realidade. Leitor e fã de poetas como Mallarmé, Baudelaire, André Breton, também acabou se tornando um autopesquisador dos efeitos alucinógenos, entusiasta do consumo de substâncias como maconha, peyote e cogumelos. Seu artigo mais famoso sobre o tema é “Conhecimento, drogas e inspiração”. Veja um trecho:

“La droga nos devuelve al centro del universo, punto de intersección de todos los caminos y lugares de reconciliación de todas las contradicciones. El hombre regresa, por decirlo así, a su inocencia original. El tiempo se detiene, sin cesar de fluir, como una fuente que cae interminablemente sobre sí misma, de modo que ascenso y caída se funden en un solo movimiento. El espacio se convierte en un sistema de señales relampagueantes y los cuatro puntos cardinales nos obedecen.”

Pouco falei sobre o álcool, embora estivesse presente na obra e sangue de todos os artistas citados e mais quase todo o resto, por não haver tabu relativo a essa substância. Bukowski e Hemingway talvez tenham sido os maiores entusiastas da bebida como fonte de entorpecimento, assim como a geração beatnik americana. A proibição do uso e comércio de outras drogas e a consequente fundação de um medo irrefletido de seu consumo serviram para que a sociedade fechasse uma cortina hipócrita escondendo as produções artísticas que abordassem de forma direta ou indireta os efeitos e reflexões sobre entorpecentes e alucinógenos. Perde-se o contato com uma obra instigante e rica de significados, embora a defesa seja a garantia de mantermos a juventude mais distante do perigo que as drogas representam.

É fácil entender o pudor acerca da exposição desse tipo de conteúdo mágico, sedutor, que inevitavelmente conduz os espíritos jovens à aventura deliciosa que as drogas assim parecem proporcionar. Contudo, esconder dos mesmos jovens a existência desse tipo de produção, a história da paixão e entrega de muitos artistas às drogas e as consequências (boas e más) desse comportamento, assim como evitar a discussão sobre as possíveis conquistas psicológicas que algumas drogas podem proporcionar, ainda mais em tempos de google, é mais que tapar o sol com a peneira, trata-se de um fenômeno que amplifica o glamour do universo das drogas, podendo gerar o efeito contrário ao pretendido.

Enquanto não tivermos coragem social de expor o universo paralelo que a vivência com drogas proporciona, continuaremos escondendo embaixo do tapete (cada vez mais transparente) uma arte de primeira qualidade, além de uma importante vereda no entendimento do próprio ser humano. Ainda mais uma referência que não podia faltar: Hermann Hesse, em seu Lobo da Estepe, quando recebe a droga preparada pelo músico Pablo, dentro do Teatro Mágico. Harry Haller entra numa jornada incrível dentro de seu íntimo, duelando com seus limites e imaginário até o final trágico e inesperado.

Termino a “aula” com dois mestres da literatura em língua portuguesa, surpreendendo quem os achava caretas: o modernista Fernando Pessoa e, pasmem, o parnasiano Olavo Bilac. No seu “Livro do Desassossego”, escreve um parágrafo sobre a cocaína, onde diz “O sonho é a pior das cocaínas, porque é a mais natural de todas. Assim se insinua nos hábitos com a facilidade que uma das outras não tem, se prova sem se querer, como um veneno dado. Não dói, não descora, não abate – mas a alma que dele usa fica incurável, porque não há maneira de se separar do seu veneno, que é ela mesma.” Mas sua real ode às drogas aparece escondida sob o heterônimo de Álvaro de Campos, sua mais moderna e abusada faceta poética, que compõe o “Opiário”, poema belíssimo em homenagem ao também poeta português Mário de Sá-Carneiro. Já Olavo Bilac, que também era consumidor regular de cocaína, redigiu uma crônica sobre o Haxixe. Leiam os dois textos:

Opiário

É antes do ópio que a minh’alma é doente. 

Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
já não encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os próprios gozos gânglios do meu mal.

É por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre visões de cadafalsos
Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impressão de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mala,
Que um avô meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

Ao toque adormecido da morfina
Perco-me em transparências latejantes
E numa noite cheia de brilhantes,
Ergue-se a lua como a minha Sina.

Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
Não faço mais que ver o navio ir
Pelo canal de Suez a conduzir
A minha vida, cânfora na aurora.

Perdi os dias que já aproveitara.
Trabalhei para ter só o cansaço
Que é hoje em mim uma espécie de braço
Que ao meu pescoço me sufoca e ampara.

E fui criança como toda a gente.
Nasci numa província portuguesa
E tenho conhecido gente inglesa
Que diz que eu sei inglês perfeitamente.

Gostava de ter poemas e novelas
Publicados por Plon e no Mercure,
Mas é impossível que esta vida dure.
Se nesta viagem nem houve procelas!

A vida a bordo é uma coisa triste,
Embora a gente se divirta às vezes.
Falo com alemães, suecos e ingleses
E a minha mágoa de viver persiste.

Eu acho que não vale a pena ter
Ido ao Oriente e visto a índia e a China.
A terra é semelhante e pequenina
E há só uma maneira de viver.

Por isso eu tomo ópio. É um remédio
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.

Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, enfim,
Muito a leste não fosse o oeste já!
Pra que fui visitar a Índia que há
Se não há Índia senão a alma em mim?

Sou desgraçado por meu morgadio.
Os ciganos roubaram minha Sorte.
Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte
Um lugar que me abrigue do meu frio.

Eu fingi que estudei engenharia.
Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma avòzinha que anda
Pedindo esmola às portas da Alegria.

Não chegues a Port-Said, navio de ferro!
Volta à direita, nem eu sei para onde.
Passo os dias no smokink-room com o conde –
Um escroque francês, conde de fim de enterro.

Volto à Europa descontente, e em sortes
De vir a ser um poeta sonambólico.
Eu sou monárquico mas não católico
E gostava de ser as coisas fortes.

Gostava de ter crenças e dinheiro,
Ser vária gente insípida que vi.
Hoje, afinal, não sou senão, aqui,
Num navio qualquer um passageiro.

Não tenho personalidade alguma.
É mais notado que eu esse criado
De bordo que tem um belo modo alçado
De laird escocês há dias em jejum.

Não posso estar em parte alguma. A minha
Pátria é onde não estou. Sou doente e fraco.
O comissário de bordo é velhaco.
Viu-me co’a sueca… e o resto ele adivinha.

Um dia faço escândalo cá a bordo,
Só para dar que falar de mim aos mais.
Não posso com a vida, e acho fatais
As iras com que às vezes me debordo.

Levo o dia a fumar, a beber coisas,
Drogas americanas que entontecem,
E eu já tão bêbado sem nada! Dessem
Melhor cérebro aos meus nervos como rosas.

Escrevo estas linhas. Parece impossível
Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!
O fato é que esta vida é uma quinta
Onde se aborrece uma alma sensível.

Os ingleses são feitos pra existir.
Não há gente como esta pra estar feita
Com a Tranqüilidade. A gente deita
Um vintém e sai um deles a sorrir.

Pertenço a um gênero de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
Tenho pensado nisto muitas vezes.

Leve o diabo a vida e a gente tê-la!
Nem leio o livro à minha cabeceira.
Enoja-me o Oriente. É uma esteira
Que a gente enrola e deixa de ser bela.

Caio no ópio por força. Lá querer
Que eu leve a limpo uma vida destas
Não se pode exigir. Almas honestas
Com horas pra dormir e pra comer,

Que um raio as parta! E isto afinal é inveja.
Porque estes nervos são a minha morte.
Não haver um navio que me transporte
Para onde eu nada queira que o não veja!

Ora! Eu cansava-me o mesmo modo.
Qu’ria outro ópio mais forte pra ir de ali
Para sonhos que dessem cabo de mim
E pregassem comigo nalgum lodo.

Febre! Se isto que tenho não é febre,
Não sei como é que se tem febre e sente.
O fato essencial é que estou doente.
Está corrida, amigos, esta lebre.

Veio a noite. Tocou já a primeira
Corneta, pra vestir para o jantar.
Vida social por cima! Isso! E marchar
Até que a gente saia pla coleira!

Porque isto acaba mal e há-de haver
(Olá!) sangue e um revólver lá pró fim
Deste desassossego que há em mim
E não há forma de se resolver.

E quem me olhar, há-de-me achar banal,
A mim e à minha vida… Ora! um rapaz…
O meu próprio monóculo me faz
Pertencer a um tipo universal.

Ah quanta alma viverá, que ande metida
Assim como eu na Linha, e como eu mística!
Quantos sob a casaca característica
Não terão como eu o horror à vida?

Se ao menos eu por fora fosse tão
Interessante como sou por dentro!
Vou no Maelstrom, cada vez mais pró centro.
Não fazer nada é a minha perdição.

Um inútil. Mas é tão justo sê-lo!
Pudesse a gente desprezar os outros
E, ainda que co’os cotovelos rotos,
Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!

Tenho vontade de levar as mãos
À boca e morder nelas fundo e a mal.
Era uma ocupação original
E distraía os outros, os tais sãos.

O absurdo, como uma flor da tal Índia
Que não vim encontrar na Índia, nasce
No meu cérebro farto de cansar-se.
A minha vida mude-a Deus ou finde-a …

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.

Ah que bom que era ir daqui de caída
Pra cova por um alçapão de estouro!
A vida sabe-me a tabaco louro.
Nunca fiz mais do que fumar a vida.

E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas —
E basta de comédias na minh’alma!

(No Canal de Suez, a bordo)

Olavo Bilac – Haxixe

Como a conversação, depois de haver borboleteado de assunto em assunto, durante esse jantar de refinados, tivesse caído afinal em Baudelaire e nos seus Paraísos artificiais, Jacques, que aos trinta anos de idade já tem experimentado todos os prazeres e provado todos os desgostos, disse acendendo o charuto e enchendo o segundo cálice de chartreuse verde:

“Pois afirmo-lhes eu, com conhecimento de causa, que a embriaguez do ópio não tem nenhum dos encantos que lhe atribui Baudelaire…”

“Oh! desgraçado! pois até já tomaste haxixe?”, indagou um de nós, com alguma incredulidade.

“Propriamente haxixe não tomei: tomei cousa melhor.” E relatou-nos isto:

“Foi há pouco tempo. Estava eu morrendo de tédio numa cidade do Norte. Toda a solidão daquelas ruas muito direitas, muito largas e muito vazias me havia entrado na alma. Como eu me aborrecia, meus amigos! E imaginem que, por esse tempo, sofria eu de uma singular excitação nervosa, que me fazia ficar semanas inteiras sem dormir, com o corpo quebrado, todo o organismo vibrando dolorosamente ao menor choque, à menor contrariedade, à menor emoção. Cheguei a ter horror à minha casa, àquela casa imensa e deserta entre cujas paredes se arrastavam longas, terrivelmente longas, as minhas noites de insônia. Preferi passá-las a vagar de rua em rua, sem destino: e inda hoje me lembro com pavor desses passeios noturnos por uma cidade morta, ora à claridade de luar que escorria pelas casas como um banho de prata viva, ora ao clarão trêmulo dos candeeiros de azeite, dependurados a ganchos de ferro, rangendo lugubremente ao mais fraco sopro de vento… Um dia, um médico meu amigo aconselhou-me o uso do ópio.

“Protestei que seria inútil: a morfina, o láudano, tinham sido impotentes, deixavam-me o corpo despedaçado, a língua amarga, a cabeça apuada de dores, e a alma acordada, no mesmo sofrimento e na mesma agonia. Ele, então, receitou-me um novo preparado…

Não conhecem vocês, com certeza: é o tanato de canabina. A canabina é o alcalóide que se extrai do haxixe, dacannabis indica. Recebi esperançado, das mãos do farmacêutico, a pequena caixinha redonda, sentindo, com delícia, mexerem-se dentro dela, no pó avermelhado, as doze pílulas consoladoras, pequeninas, escuras, moles, de uma cor de bronze azinhavrado. O farmacêutico, solícito, recomendou-me com ares misteriosos que não tomasse, em caso algum, mais de duas pílulas. Mas já eu não ouvia…

“Esperei a noite com uma ansiedade grande. As dez horas tomei duas pílulas, deitei-me, e, abrindo um livro qualquer, chamei o sono. Não sei que livro era: sei que a página me interessou, e que, embebido na leitura, me despreocupei do efeito da canabina. Ao cabo de algum tempo, olhei para o relógio. Correra uma hora. Nenhum efeito. O cérebro claro, fresco: nenhum desejo de sono.

Sorri, com desdém, do poder do narcótico, e engoli corajosamente mais três pílulas e dali a um quarto de hora uma outra. Não posso dizer se ainda gozava de pleno uso da razão, quando tomei essa quarta pílula. Quero crer que não: não sei mesmo como consegui voltar à cama. Doía-me a cabeça alucinadoramente. Estalava-me no ouvido um barulho de mar quebrando-se de encontro a rochedos. E não sei se acharei palavras para lhes referir o que principiou então a passar-se em mim…”

Jacques esvaziou o seu cálice de ebartreuse. Nós todos ouvíamos calados e ansiosos. Ele, com a voz um pouco trêmula, continuou:

“Foi uma cousa horrível, sobre-humana, inenarrável, prolongada por toda a noite. Eu não dormia, mas não estava acordado. Dentro do meu corpo havia uma alma que sentia, que pensava; mas, como hei de eu explicar isto? não era a minha verdadeira alma, porque essa eu a sentia fora de mim, divorciada do meu corpo, pairando sobre ele, querendo reentrar nele, e não podendo! não podendo! não podendo! Sabem vocês o que se passa, alguns momentos depois da morte, segundo os espíritas? Dizem os espíritas que a alma, abandonando o corpo, não se afasta dele, e, enquanto não se faz o enterro, fica errando em derredor do despojo carnal desprezado. Era talvez isso o que eu sentia… Mas, não! não era isso, porque além da minh’alma que pairava fora, havia uma outra que permanecia no corpo, sofrendo e chorando…

“Vejamos… Eu tinha consciência de que estava deitado, de costas sobre a cama: apalpava-me, sentia o calor da minha carne, a pulsação de minhas artérias, sabia que não estava sonhando… Doía-me a cabeça cada vez mais: era como se, estando ela apertada entre duas barras de aço, a fossem pouco a pouco esmigalhando, amassando, triturando. Eu sentia tudo isso: logo a minh’alma estava ali. Mas que outra alma era aquela, também minha, que estava fora da carne e dividida entre dous sentimentos opostos: a mágoa de não poder entrar no corpo que era seu, e a delícia de não poder estar sofrendo o que esse corpo sofria?…

“Quanto tempo durou isso, não lhes posso dizer: deve ter durado séculos. Quantos? um, cem, mil, uma eternidade…

“Depois, senti que acabara o desdobramento da minha personalidade. Estava outra vez com uma só alma. O corpo continuava a sofrer, a sofrer indizivelmente. E a alma, outra vez una, outra vez indivisível, adquiriu uma acuidade, uma perfeição, uma clareza de memória sobrenaturais. Recapitulei toda a minha vida, de dia em dia, de hora em hora. Lembrei-me até de quedas que dei, quando tinha um ano de idade. Assisti mesmo à cena do meu nascimento… E como me doía o remorso dos menores crimes cometidos, das mais insignificantes injustiças praticadas! Tudo isso se passava em absoluto, cm perfeito estado de vigília. Eu via arder, debaixo do globo azul, a chama da minha lâmpada de petróleo; via agitarem-se à janela as cortinas brancas; ouvia o tique-taque do relógio sobre a mesa… E vi mesmo o dia romper lá fora, como uma meia-luz tênue a princípio, depois como uma claridade violenta que me pôs no quarto, atravessada de parede a parede, uma larga faixa cor de ouro, em que dançavam milhões e milhões de átomos de poeira afogueada… Foi então que dormi, sono bruto, sono de pedra, sono de morte, por dez horas a fio…”

“O mais curioso”, concluiu Jacques, depois de uma pequena pausa, “é que o abalo produzido por essa noite no meu organismo foi tão forte, tão brutal, que me restituiu a saúde: equilibrou os nervos e livrou-me da insônia. De modo que a canabina me curou, não pelo bem, mas pelo mal que me fez…”

Houve um momento de silêncio. Um de nós disse: “Mas isso nada prova… Você sofreu assim, porque o excitante encontrou mal preparado o terreno em que devia operar. E, mesmo, está hoje provado que o haxixe nada mais faz do que exacerbar o estado normal do indivíduo: dá mais alegria a quem é naturalmente alegre, e mais tristeza a quem é naturalmente triste…”

“Pode ser!”, retorquiu Jacques. “Mas aconselho-lhes que não experimentem. Demais, sabem quem tem razão? É Balzac, que, apesar de fazer parte de um clube de bebe-dores de haxixe, nunca bebeu a droga, porque (dizia ele) o homem que voluntariamente se despoja do mais belo atribulo humano — a vontade — deve ser, na escala animal. colocado abaixo do caramujo e da lesma… E vamo-nos embora, que é meia-noite!”

Sobre Adriano Dias

Adriano Dias é um dos idealizadores do projeto, articulista e mergulhador no "mar de signos" em busca de formas curiosas e relevantes de cultura. Também leciona literatura, gramática e técnicas de redação como profissão.

3 comentários

  1. O tema é realmente fascinante e a aula apresenta um ótimo panorama, apesar de o texto estar precisando de algumas revisões… aliás, a obra aqui atribuída a Manet (e que no texto é chamado Monet, algo que pode causar muita confusão) é, na verdade, “O bebedor de absinto”, de Viktor Oliva. A obra de Manet seria esta: http://4.bp.blogspot.com/-y5U3SYq2gc4/VTHgQSw9NqI/AAAAAAAAAac/PIhdw5mgEwA/s1600/89251872.jpg

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