sudo yum install newrelic-php5 sudo newrelic-install install
segunda-feira , 18 junho 2018
A vida é durante, se aceitarmos que o tempo existe

A vida é durante, se aceitarmos que o tempo existe

(Imaginary Foundation: http://www.imaginaryfoundation.com/store/art/mobius-art-print.html)

“Entre”, ou “durante” são as palavras que melhor definem quase todos os momentos de nossa vida. Somente algumas raras circunstâncias de completude, tipo fim de curso, de início de relacionamento, e, imediatamente, já estamos novamente durante alguma coisa. Por isso realizamos celebrações homéricas nos marcos como reveillon, formatura, aniversário: por serem raros. Todos os outros instantes da vida estamos com uma meta em vista e um marco no passado. Proporcional ao êxtase da conclusão pode ser a angústia, ansiedade, do processo. Tal pode ser o martírio ou o milagre da vida.

Entra no carro, ou ônibus, ou mesmo a pé e estamos rumo a algum lugar, suspensos entre o “de onde vim” para o “aonde vou”. Começamos a trabalhar e já estamos entre a glória do descanso de nossa vida particular e a hora de sair das obrigações a cumprir e “voltar a viver”. Saímos para o almoço e estamos somente numa passagem, ponte entre as horas de trabalho. Encerramos o expediente e estamos entre o hoje e as férias, entre o agora e a próxima viagem, o fim de semana, no caminho. Veja o belíssimo vídeo da agência GRAIN, de Singapura, que flagra a poesia deixada para trás nesses momentos ENTRE:

Momo e o Senhor do TempoEm maior ou menor grau, vivemos, por um lado, à referência de um passado, saudade, o que já fomos, o quanto já tivemos, ou, outro lado, na expectativa, no plano, projeto, meta: expectativa e saudade, balizas entre as quais estamos, caminhando quase sempre às cegas do passo sob os pés. Desde os primeiros registros do pensamento poético e filosófico percebe-se a preocupação em identificar o que é o Existir e qual o papel do Tempo no sentido da vida.

Não temos mais tempo suficiente para realizar a leitura de textos pesados como “O Ser e o Tempo” de Heidegger, ou “a Náusea” de Sarte, mas temos o auxílio prodigioso de poetas incríveis a nos alertar sobre as armadilhas que o tempo nos prepara. Michael Ende, autor de A História Sem Fim, criou uma obra infantil mágica sobre o tempo que nos é roubado pela vida moderna em “Momo e o senhor do tempo”. Vinícius de Moraes compôs uma obra hedonista, de quem curtia a vida intensamente, tanto no que ela oferece de prazer quanto de dor. Em certo poema, afirma “Nasço amanhã / Ando onde há espaço: / – Meu tempo é quando.”

Notar a fugacidade do tempo pode fazer aflorar um desespero pela vivência exagerada, o CARPE DIEM latino, embora o termo seja mal empregado atualmente, mais sinônimo de Vida Louca que de busca de aperfeiçoamento espiritual e intelectual (como na origem). Charles Baudelaire, o maldito maravilhoso criador da poesia moderna, expressa sua percepção da necessidade de se viver o durante da seguinte forma:

“É necessário estar sempre bêbado.
Tudo se reduz a isso; eis a única questão.
Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.
Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder: É hora de se embriagar!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.”

Índio AmondawaE assim, cada vivência “durante” acaba por tornar-se completa em si. A criação do conceito de tempo foi um dos mais poderosos determinantes da psique humana da história. Há uma tribo indígena amazônica, os amondawa, cuja língua não contempla a concepção de tempo, seja futuro ou passado, nem amanhã, ou depois, não há como referir-se a um tempo que não seja o presente. Eles conseguem relacionar sequência de fatos ou eventos, mas não concebem o tempo abstratamente, inclusive não contam nem idade, mas mudam de nome ao longo das etapas da vida. Não é possível, em seu idioma, expressar a ideia de que uma coisa já aconteceu ou que virá a ocorrer. Incrível, não! Para eles, a vida é um eterno presente. Ou melhor, nem o presente existe, pois este é dependente da noção de passado e futuro, como melhor explica o heterônimo mais sábio de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro:

“Eu não Quero o Presente, Quero a Realidade

Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas
como cousas.

Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes. […]”

O ClickOK, não é fácil esse existencialismo radical, abdicar da noção tão intrínseca de tempo pela qual organizamos a vida, abrir mão de planejar, sonhar e recordar, saudosos ou objetivos, buscando nos avaliarmos em referência a nossa realidade passada ou projetada. É um exercício mental absurdo nos colocarmos no lugar dos amondawa, do sábio camponês de Fernando Pessoa, ou do alucinado Baudelaire, mas parece interessante a percepção crítica do desperdício de nossa existência ao perdermos cada precioso segundo esperando a vida que virá ou recordando o que passou como uma forma de fazer o agora passar mais rápido, mais que deixar o presente passar, apertar o botão FOWARD do controle remoto, como o tosco e fabuloso filme com Adam Sandler, “O Click”. Por vários caminhos percebemos essa ilusão, seja um filme B, um poema clássico, toda a obra de um monstro da filosofia, ou um livro infantil. Uma verdade clara, óbvia, evidente, que esquecemos, enquanto o tempo passa.

A vida acontece durante.

Sobre Adriano Dias

Adriano Dias é um dos idealizadores do projeto, articulista e mergulhador no "mar de signos" em busca de formas curiosas e relevantes de cultura. Também leciona literatura, gramática e técnicas de redação como profissão.

5 comentários

  1. excelente texto, concordo plenamente. Esta definiçao de tempo passado/futuro que surgiu como uma necessidade de nos orientarmos, acabou nos roubando o que tinha-mos de mais valioso… O tempo/presente ou como prefere Fernando Pessoa… O tempo/real. AGORA,AQUI,SOU…

  2. “abrir mão de planejar, sonhar e recordar, saudosos ou objetivos, buscando nos avaliarmos em referência a nossa realidade passada ou projetada. É um exercício mental absurdo”

    Eu não consigo nem imaginar como essa tribo faz isso, me dói tentar entender.
    Que sede deles.
    Não possível.
    To pasma.
    Com a novidade da tribo e com o essa tua publicação no geral.
    A vida acontece durante é PERFEITO
    parabens

    • Incrível, não? Não dá para supor essa realidade, mas saber que é possível nos deixa desconcertados. Toda publicação mais recente acerca dessa tribo ainda busca contradizer (sem sucesso) a não concepção de tempo por parte deles. Que bom que curtiu o texto, é uma epifania deliciosa que precisava compartilhar!

  3. O melhor post que eu tive o prazer de ler em 2014; Genial, como nossa vida é efêmera…
    “desperdício de nossa existência ao perdermos cada precioso segundo esperando a vida que virá ou recordando o que passou como uma forma de fazer o agora passar mais rápido, mais que deixar o presente passar…”

    • Obrigado, Felipe. Fico muito feliz não só com tanta lisonja, como com a certeza que as ideias que pretendia expor terem sido compreendidas, pois é difícil se fazer entender plenamente em temas tão complexos como este. Que bom encontrar quem tenha tido, talvez, a mesma epifania que eu.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Scroll To Top
sudo rpm -Uvh http://yum.newrelic.com/pub/newrelic/el5/i386/newrelic-repo-5-3.noarch.rpm