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quinta-feira , 27 abril 2017
A verdadeira fidelidade é ensinada por Vinícius de Moraes
Ilustração de Pascal Campion (http://pascalcampion.blogspot.com.br/)

A verdadeira fidelidade é ensinada por Vinícius de Moraes

Ilustração de Pascal Campion (http://pascalcampion.blogspot.com.br/)

Ilustração de Pascal Campion (http://pascalcampion.blogspot.com.br/)

Vinícius concebeu poeticamente a mais bem acabada e profunda conceituação de fidelidade:

– Fidelidade não é castração, mas dedicação!
– Fidelidade é bilateral!

Figura popular e grande poeta brasileiro, Vinícius concebeu, em sua obra artística uma noção diferente e contestadora da fidelidade, do tempo e do amor. Praticamente sinônimo de paixão, amar era fúria (para bem e para mal), atenção ao ser amado ao limite da devoção, intensidade incalculável (infinita), por mais que contando com a possibilidade (parece que iminente) de um fim. Quem não conhece seu Soneto da Fidelidade:

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Ilustração de Pascal Campion (http://pascalcampion.blogspot.com.br/)

Ilustração de Pascal Campion (http://pascalcampion.blogspot.com.br/)

Numa leitura facilitada, o que o Poetinha quer dizer é que, enquanto estiver com a pessoa amada, esta será vítima de uma atenção vigilante, dedicada, inteira. Assim, ele estará inteiro na relação, respeitando o amor que sente e será honesto com a pessoa com quem está, pois proporcionará a ela o melhor que pode dar.

O conceito tradicional e raso de fidelidade lida apenas com o corpo (que é o que temos de mais óbvio). Não permitimos que o (a) parceiro (a) toque sexualmente mais ninguém além de nós. Há quem estenda essa proibição ao campo do pensamento (quase todo mundo), mas não temos ferramentas adequadas para verificar esse dado. Assim, fidelidade é sinônimo de não poder desejar mais ninguém além daquele com quem se fez o contrato de relação.

Nada nesse conceito pensa que tipo de dedicação, afeto, carinho, atenção se deva em relação ao parceiro. Não tem a ver com nível de carinho, intensidade do amor, mas unicamente uma lei proibindo relacionamento com mais alguém por um pertencimento, um combinado de propriedade sobre o desejo alheio. Isso é a fidelidade tradicional

Vinícius permite a possibilidade da relação extraconjugal, principalmente se ela permitir uma bela cena trágica de vasos na parede, rasgos de unhas mal cortadas, tapas na cara, choro e o final da cena numa relação sexual furiosa de reconciliação. Para ele a intensidade vinha em primeiro plano, a posse depois. Se quebrar a regra da posse possibilitasse uma intensidade maior à relação, este seria o caminho a seguir.

Muito polêmico para quem teme perder o outro. Muito suicida para quem teme. Contudo, a crítica em relação à fidelidade tradicional presente nesse conceito é inquestionável: estar com quem diz que se ama e não lhe dedicar a devida atenção (a máxima que puder) é privar o outro e a si mesmo de vivenciar o amor apaixonado que merece. Isso é infidelidade para Vinícius, traír o direito a ter uma vida plena e apaixonada!

Fica difícil a equação. Ele foi um xavequeiro de primeira. Boêmio, sambista de boteco com Tom Jobim, Toquinho, Chico, ficava em Ipanema olhando a “coisa mais linda, mais cheia de graça” que vem e que passa pelo calçadão da praia. Casado 9 vezes, teve relações extraconjugais em todos os relacionamentos que manteve, mantendo-se fiel ao seu conceito de fidelidade. Quando a possibilidade do tédio rondava a relação, fim da relação.

Não tenho o princípio suicida de Vinícius, nem sua coragem para criar confusões que culminem numa enlouquecida reconciliação, mas entender seu ponto de vista impede que minha vida e meu relacionamento permaneçam os mesmos. Escolhi viver sua fidelidade, mas com um elemento complicador: com a mesma pessoa…

Ilustração de Pascal Campion (http://pascalcampion.blogspot.com.br/)

Ilustração de Pascal Campion (http://pascalcampion.blogspot.com.br/)

Já fiz um artigo em que explicito como busco manter minha relação (Não se trata de fidelidade: escolho a mesma pessoa há anos), mas faltou aprofundar a importância que teve a lição de Vinícius na ponderação de como a fidelidade vivo com minha mulher deve ser construída com base numa paixão que se renove, para que não traia minha necessidade de ser pleno, feliz e intenso como alguém apaixonado consegue ser, assim como não tenho o direito de roubar dela esse mesmo prazer. Construímos uma relação em que somos os amigos que se bastam e os amantes que se desejam.

Temos filhos e os amamos, dedicamos muito de nossa vida e energia no cuidado, educação e prazer de dividir a vida com eles, mas nunca deixamos que o espaço deles invada por total o nosso, que a paternidade/maternidade nos substitua como indivíduos e como amantes. Curtimos ao máximo as oportunidades de ficarmos a sós e nos “livrar-nos” das crianças, sem culpa e sem saudades, voltados para nós mesmos. Assim como temos nossas próprias individualidades bem respeitadas e intensas, eu com meu trabalho, sonhos, universo de desejos pessoais que é tão vasto quanto diplomaticamente organizado em relação ao que posso realizar com ela. Ela com seu trabalho, sonhos, universo de desejos pessoais condicionado também pelo que podemos realizar juntos. E esse espaço comum é imenso. Há muitas maravilhas que podemos realizar individualmente, tendo no outro um cúmplice, alguém torcendo, comemorando junto, para se orgulhar, admirar e aumentar ainda mais o desejo.

Não temos a mesma capacidade suicida de Vinícius, de arriscar a perda de tudo para apimentar a relação, mas a busca por manter a intensidade de nossas próprias vidas sempre no nível da paixão, em âmbito individual, do casal e de toda a família tem permitido que vivamos uma fidelidade viniciana, ou seja:

lutamos para eternos em nossa chama e infinitos,

durando para sempre…

LEIA TAMBÉM: Não se trata de fidelidade: escolho a mesma pessoa há anos

Sobre Adriano Dias

Adriano Dias é um dos idealizadores do projeto, articulista e mergulhador no "mar de signos" em busca de formas curiosas e relevantes de cultura. Também leciona literatura, gramática e técnicas de redação como profissão.

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