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sábado , 29 abril 2017
A revolução invisível: já estamos trocando a competição pela colaboração

A revolução invisível: já estamos trocando a competição pela colaboração

(foto de Travis White, em: https://www.behance.net/traviswhite – Burning Man 2013)

Travis White: https://www.behance.net/traviswhite

Travis White: https://www.behance.net/traviswhite

Está em processo, exatamente agora, o movimento social global mais revolucionário da história de nossa raça, mais uma enorme página está sendo virada e o mundo está mudando (o nosso pelo menos). Os artistas já perceberam essa dinâmica, como apontei no artigo Carpe Diem: você está vivenciando o fim do mundo, uma cadeia de transformações de pequeno e grande porte nas mais variadas frentes, gradativamente alterando o modo como enxergamos as relações humanas. A Competição está dando lugar à Colaboração.

A lógica sempre foi (e ainda é) a seguinte: vivemos em um mundo competitivo, portanto, é preciso aprender a ser o melhor. Assim, mesmo que não concordemos, que passe pela nossa cabeça o sonho de um mundo melhor, gentil e delicado, temos um imperativo controlando boa parte das ações do mundo estabelecido que se determinam no sentido de tornarmo-nos competitivos e estimularmos a competição nas gerações seguintes. Nada mais comum que a preocupação de um pai em relação a seu filho, pensando se ele terá condições de ser feliz, de se dar bem na vida adulta agindo apenas com gentileza. O instinto e seu condicionamento em ler o mundo como uma selva muito comumente leva o pai (ou a mãe) a cobrar resultados dos filhos, a incentivá-los a se destacar em algo, a escolher uma escola em que ele seja exigido e estimulado a ser bom, se possível, o melhor.

Somos uma sociedade desigual, individualista e agressiva porque todos as etapas de nossa vida são organizadas partindo do pressuposto da competição. Todo planejamento se dá mediante um fim, assim, é para o “mercado de trabalho” que se programa os humanos. Conforme se entenda como É esse mercado de trabalho (como se fosse simples) planeja-se todas as etapas de preparo para ele. Treinamos os humanos para disputas porque a vida é uma competição! Planejamos todas as etapas de desenvolvimento baseados na superação uns dos outros porque a vaga na universidade é competida, o mercado de trabalho é um funil, as empresas concorrem entre si! Essas verdades nada óbvias são a base do estabelecimento de toda a dinâmica de formação social e cria um processo autoformador, na medida que os competitivos seres humanos formados nesse sistema não sabem realizar outras relações sociais e trabalhistas que não sejam baseadas na disputa, no confronto, no jogo de interesses.

Mas há uma alternativa se solidificando, uma dinâmica social que rearranja todas as relações trabalhistas, corporativas, de consumo e, consequentemente (ou por consequência disso), comportamentais: a colaboração. Iniciativas como o Co-working, crowdfunding, couchsurfing, creative commons, crowdsourcing, wiki, toda essa terminologia que vem invadindo nosso dia a dia jorrando tela afora dos aparelhos conectados à internet, está redesenhando a realidade como um todo. Já é possível encontrar, e não são poucos, jovens de alto nível intelectual, cultural e socioeconômico planejando sua vida pós-escolar sem seguir o padrão que até então se mostrava único, abrindo mão de cursos universitários em função de cursos profissionalizantes e técnicos, engajamento em projetos empreendedores, coletivos de ação social, viajando pelo mundo em busca de experiência de vida. Nada do que digo aqui é original, veja o vídeo feito pela agência de publicidade BOX1084 (do Rio Grande do Sul) sobre o mercado de trabalho contaminado pela nova geração: os millenials. São 10 minutos de um diagnóstico brilhante sobre nosso tempo, vale cada segundo:

Note que o cenário revolucionário pintado pelos editores do vídeo, embora tenham tido todo cuidado em criar uma atmosfera de maravilhamento e grandiosidade, não elimina o estabelecimento e engajamento de pessoas em funções fundamentais (ou não) tradicionais, como docência, medicina, engenharia, etc, mas coloca tais atividades como existenciais, como consagração de um projeto de vida, não um destino irreversível e baseado em escolhas pré-determinadas.

Vejamos uma a uma algumas das novas dinâmicas sociais e possíveis implicações:

catarse-jpg1. Crowdfunding: por meio de vaquinhas virtuais estão se tornando reais projetos que vão desde a gravação de um filme amador até o desenvolvimento comercial de equipamentos eletrônicos de última geração, como impressoras 3D. Já anunciamos alguns produtos produzidos por meio deste modelo de financiamento. Em geral, caso você tivesse algum projeto pessoal, tentaria vender a alguma empresa sua ideia, ou correria atrás de um financiador, como agente (no caso do mundo das artes). Pelo crowdfunding o produto pode ser pré-vendido e o dinheiro dos clientes que já comprariam sua produção financia o desenvolvimento. Apesar de o site ser um atravessador (fica com parte da receita captada) o autor da ideia capta o dinheiro direto de seu público alvo. Talvez nunca chegue a loja nenhuma o produto (livro, disco, filme, equipamento), sendo vendido (após o sucesso da captação) pelo site do próprio desenvolvedor.

foradoeixo-jpg2. Coletivos: um grupo de amigos com vontade de compartilhar um local, como uma república, mas produzindo, talvez juntos, talvez cada qual seu projeto, decidem alugar o imóvel, reformam juntos o lugar, delimitam as regras de convívio e, se for o caso, de produção e andamento do empreendimento e botam a mão na massa. Para se ter ideia da proporção que o negócio pode atingir, a famosa Mídia Ninja (que cobriu as manifestações de junho/2013 ao vivo pelo facebook) é um coletivo (um dos maiores do Brasil – o Fora do Eixo, que organiza shows pelo Brasil inteiro e tem bases espalhadas em todo país). A iniciativa tem mais flexibilidade e informalidade que a cooperativa, dispensando qualquer regularidade burocrática (não tem registro oficial nenhum). É comum que o coletivo sirva como embrião para potencializar projetos profissionais individuais.

couch-jpg3. Couchsurfing: a junção de dois interesses e possibilidades de diversão, viajar barato e conhecer gente nova. A comunidade une os chamados surfistas de sofá, possibilitando o contato entre quem vai viajar e quem se dispõe a receber em sua casa um viajante. Com todas as precauções relativas a segurança, por meio de critérios de avaliação, o cadastrado disponibiliza seu sofá para receber visitas de qualquer lugar (você pode especificar suas restrições e exigências como anfitrião) e quando você quiser viajar, procure possíveis sofás para dormir nos locais por onde passará, garantindo uma estadia gratuita, possibilidade de conhecer alguém interessante que tem todo domínio da cultura local. O programa vem sendo muito utilizado por estudantes, intercambistas, participantes de congressos, etc. O cadastro é gratuito. Este modelo de relação humana não só promove um turismo mais acessível como estimula o intercâmbio cultural, a generosidade, a tolerância e o cosmopolitismo. Quem sabe não seja o germe de um mundo sem fronteiras.

wikipe-jpg4. Wiki – o conceito de Wiki (Wikipedia, Wikileaks, Wikihouse, Wikiloc, Wikifeet) está ligado diretamente ao espírito colaborativo, é a concretização, por meio de um recurso de programação, desse espírito. Assim como a wikipedia é um acervo colaborativo de informações, dentro do qual qualquer pessoa pode não só incluir seu verbete, mas também modificar outros que já existam, as iniciativas Wiki têm esse perfil, ou seja, todos estão convidados a colaborar para a produção da ferramenta e podem interferir, modificar, moderar o que vem sendo feito. Wikihouse é um software de criação de casas/mobiliário (veja o artigo Imprima sua casa em 5 etapas); Wikisource, uma enorme biblioteca virtual de textos gratuitos para download; Wikiloc é um programa que pretende aglomerar o máximo de informações sobre lugares legais para se conhecer; até um site colaborativo que compartilha fotos de celebridades, o Wikifeet. Mais que sites, são uma nova dinâmica de produção de bens imateriais e materiais (conhecimento e produtos), a maneira Wiki de se fazer o mundo.

download-jpg5. Mas, talvez o mais significante dos novos modelos colaborativos de ações humanas, seja o Crowdsourcing, uma iniciativa que utiliza a inteligência, o espírito investigativo, a criatividade e a cultura de pesquisadores acadêmicos, autodidatas, curiosos do mundo todo em busca de soluções produtivas para diversos problemas sociais, tecnológicos, humanos e científicos. Ou seja é a tentativa de criar uma aldeia global de conhecimento para solucionar nossos problemas e desenvolver novas tecnologias (o Firefox e a Wikipedia foram criados nesse modelo, por exemplo). Assim, quem diz que fora do mercado competitivo e capitalista não há possibilidade de desenvolvimento tecnológico e científico precisa conhecer essa plataforma, cada vez maior, agora interligada com o crowdfunding para financiamento de pesquisa.

Sem me alongar demais, ainda vale menção ao modelo que vem realizando a transição da propriedade intelectual (do modelo capitalista) para a liberdade de uso do capital cultural, o Creative Commons, espécie de licença de uso de produtos culturais (música, desenhos, textos) apenas com a menção ao autor da obra (sem necessidade de pagamento de royalties). Em uma sociedade da pirataria, cada vez mais se aceita a ideia de que é inevitável criar possibilidades de uso irrestrito dos produtos culturais.

Estes modelos acima mostram que um novo mundo está sendo construído, à margem da necessidade das grandes corporações de lucrar, produzir, despender energia, depredar os recursos naturais de nosso planeta. Não que as próprias corporações, ou os donos do capital não estejam lucrando com tais ferramentas e planejando formas de regular esse mercado, ou ao menos estar na vanguarda das iniciativas lucráveis, mas mesmo com esse fenômeno oportunista, a dinâmica das relações de poder inevitavelmente será abalada. O mundo é o que fazemos dele, as forças de regulação das relações humanas são produto do tempo. Assim como durante a Idade Media os feudos trocavam mercadorias, os cidadãos eram submetidos à escravidão e aceitavam seu jugo pacificamente pelo poder da Igreja e da Nobreza; assim como o comércio criou um novo poder, a burguesia, que derrubou a monarquia em todo mundo; assim como o discurso científico vem substituindo o poder de verdade do discurso religioso; nosso tempo é um tempo em que toda a sociedade irá se adaptar a um novo paradigma, a colaboração.

O raciocínio aqui elaborado e defendido não é original, há muita gente bem mais conceituada defendendo esse processo que aqui denuncio. Dentre as mais relevantes está Howard Rheingold, um dos maiores difusores das conquistas que o modelo colaborativo tem realizado. Veja sua palestra na Ted Talks, onde deixa claro que a cooperação é um processo que acompanha a humanidade desde sempre (assim como a competitividade), justificando a mudança atual de paradigma na perspectiva histórica:

Veja, também, a palestra de Jimmy Wales, o idealizador e responsável pelo primeiro (e mais bem sucedido) grande projeto de Crowdsourcing da história, a Wikipedia.

Ninguém ainda consegue prever (embora haja uma série de leituras de nosso tempo muito interessantes e promissoras) como se estabelecerá essa nova realidade, mas o que parece cada vez mais claro é que o modo capitalista está chegando ao seu limiar, uma fronteira está sendo cruzada e estamos vivenciando, como forças influenciadoras e massa influenciada, o fim de uma Era e o início de outra.

Sobre Adriano Dias

Adriano Dias é um dos idealizadores do projeto, articulista e mergulhador no "mar de signos" em busca de formas curiosas e relevantes de cultura. Também leciona literatura, gramática e técnicas de redação como profissão.

2 comentários

  1. Caminhamos para uma Economia Baseada em Recursos, conceito criado e desenvolvido inicialmente pelo Projeto Venus (http://pt.thevenusproject.com/), defendido pelo Movimento Zeitgeist (um movimento global crescente pelo bem estar humano sustentável), pela Carta ao Mundo Livre (http://www.freeworldcharter.org/pt-BR), entre outros movimentos e instituições.

    • Foi difícil, na redação do artigo, deixar de lado movimentos como o Zeitgeist e o World Charter, assim como iniciativas de retomada do escambo na Europa e Canadá, mas ficaria longo demais, pois teria que explicar cada uma das ações. Há uma gama enorme de iniciativas colaborativas que são altamente revolucionárias. Não conhecia o Projeto Vênus, bem interessante. Obrigado pela participação.

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